Desabafos de Marvão

O convite de um amigo para desabafar na Rádio Portalegre, todas as quartas, às 7.30h, 10.30h, 13.30h, 17.30h, 23.30h, levou-me também a criar um espaço, na blogosfera, onde possam ficar registados os textos da versão radiofónica. Espero que gostem e já agora, se não for pedir muito, que vos dê que pensar. Um abraço...

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Um rapazinho de Marvão

quarta-feira, novembro 08, 2006

6º Desabafo - 08.11.2006 - Tempos de Mudança




Vivemos claramente numa época de viragem. A sociedade portuguesa, tal como hoje a vemos, não é a mesma que durante épocas nos habituamos a olhar sob um prisma conservador, pejado de pressupostos e dogmas, certezas que não devíamos sequer ousar questionar. Bem sei que todas as gerações têm a tendência de se verem a si próprias como fracturantes e inovadoras, mas em relação aos tempos que correm, ainda alguém duvida que a tradição, como dizia o tal reclame, já não é mesmo o que era?

Senão vejamos,

Crescemos a ouvir dizer às mães “estuda filhinho… para seres alguém na vida, para chegares a doutor, para teres dinheiro e felicidade e poderes ter tudo o que queres. Para que os outros respeitem até o chão que tu pisas, para que sejas imitado e considerado, para que sirvas de modelo aos mais pequenos, para que as outras mães te invejem e as suas filhas te desejem. Para que sejas um homem. Para que sejas alguém. Não te preocupes com os sacrifícios que nós cá nos desenrascamos. Há pr’ali umas poupanças e se for preciso, para teu bem, nós até vãos de escadas varremos. Tu trabalha duro que nós cá estaremos.” Pois é, acreditava-se assim que o ensino era a estrada mais segura para o sucesso. Um curso superior era, para além de tudo o mais, o garante de emprego e de estatuto. Estudar muito para tirar um curso servia de passaporte para a estabilidade financeira e já agora emocional. Atrás disto viria tudo o resto. Mal feitas as contas, dos meninos que se fizeram homens assim, teríamos forçosamente que os separar em duas alas, os que estudaram para ser doutores e os que não. Desses que não estudaram, dois grupos emergiam: os que se safaram e os que ficaram a ver navios. Simples e óbvio!

Pois os tempos passaram e hoje não são apenas alguns mas sim a grande maioria que é literalmente empurrada pela porta das faculdades adentro, para serem doutores à força. Tem mesmo de ser porque a escola já não é a 4ª classe, isso do nono ano já lá vai, com o 12º não te safas e estuda mas é senão nem a doutor chegas. A Universidade deixou há muito de ser um espaço de descoberta e de experiência, uma terra de dúvidas e crescimento, para ser um domínio de certezas, para se tornar num upgrade dos liceus, uma liga dos semi-campeões onde se fazem mais 3 ou 4 aninhos para o canudo. A imagem cola: uma fábrica de canudos! E a grande maioria dos jovens universitários entram temerários e imberbes, ainda com o cordão umbilical por cortar, receosos mas depressa se ambientam. Começam as praxes, com um bocado de sorte arranham umas letras e entram na tuna, festas daqui e dali, Natal, ano novo e exames, o Carnaval, a Páscoa, a Primavera, as esplanadas, o prazer da vida boémia e eis que chegam as férias de Verão. Praia. Época de exames e tá-se bem. Os paizinhos patrocinam a roupa de marca, o portátil e os gadjets de última hora, telemóvel 3G topo de gama, o desportivo comercial que os autocarros estão fora de moda, quarto, cama e as férias com a namorada do último semestre. Ao fim dos 4, 5, 6, 7 anos, tocam as doze badaladas no relógio da torre, quebra-se o feitiço e cai o maçarico de cú num mercado de trabalho desertinho de o explorar até ao escalpe, sugando-lhe as ideias e a vivacidade em estágios intermináveis que o obrigam a saltar de patrão para patrão, à espera de um poiso mais fixo. Uns safam-se. Outros, infelizmente não e chegam mesmo, nas noites mais frias e sozinhas a pensar a mais elementar das questões: Será que valeu a pena?

Outro dos mitos-base da nossa sociedade que olha agora abismado para o seu fim, é a aura mística dos empregos do Estado. Como disse alguém bem meu conhecido, definindo depressa e bem, num exercício louvável de economia de palavras: ganha-se pouco mas também se faz nenhum e disso a malta gosta! O espectro salazarista que cobriu de negro quase todo o século vinte português, curiosamente ajudado pela aura naif pós-25 de Abril, ajudou a criar a ideia que o Estado era o paizinho da malta toda. Trabalhar para o Estado era estar seguro, era garantir uma evolução lentinha, cinzentinha, mas segura, com o que mais interessa a cair na conta bancária ou levantado em papel-moeda todos os santos dias do mês, sem atrasos nem reclamações. Trabalhar para o Estado era, desde que um gajo não se mexesse muito e se Deus ajudasse com a quota-parte da saúde, uma certeza até à reforma. Era fazer o que o Eusébio fez com o Benfica: um contrato para toda a vida. Bonito!

A verdade de hoje é que todos sabíamos que a coisa não estava bem. E antes que estivéssemos como na Argentina, a subir a Rua do Comércio ou descer o Atalaião batendo em tachos e panelas, a chorar os dinheiritos que bateram asa do banco, o rapaz Sócrates, Primeiro-Ministro de Portugal, não está com mais nem meias e chega-se à frente. Alvo a abater, escusado será dizer, classe média em geral, com os funcionários públicos e os trabalhadores por conta de outrem à frente da largada. Para os mais distraídos, o Programa de Reestruturação da Administração Central do Estado, PRACE para os amigos, apresentado há oito meses e agora mais conhecido em pormenor, diz que em vez de 518 organismos, os Ministérios passarão a ter apenas 257, um emagrecimento como agora lhe chamam, o que significa que 261 vão à viola. Encerrados, fundidos, reestruturados ou externalizados, chamem-lhe o que quiserem, traduzido em miúdos significa que 135 807 funcionários públicos estão prestes a acordar do sonho lindo que viveram para descobrirem que são supranumerários. Ser supranumerário é ser mais que o necessário, é não fazer tanta falta, é ser acessório. É estar a mais. E assim, dentro em breve, 41 mil do Ministério da Saúde, mais 27 mil da Segurança Social mais outros tantos mil de sabe-se lá de onde, vão passar em dois meses a perder 33% do salário base para depois, não fazendo falta onde estão, a outro lado irem parar.

Ninguém duvida que a coisa estava mal. É impossível não concordar que é ridículo só de pensar que 2 anos depois do fim do serviço militar obrigatório, ainda existe um Gabinete de Objecção de Consciência, onde 11 almas labutam arduamente todos os dias da semana, das 9 ao meio-dia e meia e das duas à cinco, para reencaminhar no serviço cívico quem já não há para reencaminhar?

A coisa estava mal, mal e todos concordamos. Mas há coisas, senhor 1º Ministro, que não se fazem e uma delas é mudar as regras do jogo depois deste começar. Se a coisa tinha de ser feita, que tinha, que ao menos fosse feita com visão, espaçada no tempo, dando margem para que alguns saíssem e que outros tivessem apoios para se poder mudar. Porque o que o senhor está a fazer aos funcionários públicos, é uma reedição da velha história em que o marido descobre no seu próprio leito conjugal, a felicidade da mulher com quem casou só que nos braços de outro e, tolhido pelo ciúme e pela desgraça, pega na caçadeira e convida o prevaricante a escolher um salto pela janela do nono andar ou o chumbo quente que está prestes a sair pelos canos sobrepostos. Não se faz! Não é por nada, mas não se faz! “Prontos!”, como se diz agora.

Os seus teóricos dizem que não é pelo excesso de pessoal, que não é pelos salários, que é a despesa inerente à função pública e à pala disso mudam-se sistemas de carreiras e reformas, vínculos, remunerações e regime de avaliação do desempenho.

Imagine-se o senhor um pai de família, contas de carro e casa para pagar, as prestações das últimas férias de Verão e da consola que no Natal passado fez as delícias do filho mais novo. Com um afilhado para casar e um sobrinho a caminho para presentear. Com a filha a dar o salto para o superior, em cima das contas óbvias: água, luz, tv cabo e gás. A contar ao cêntimo o que há-de cair no dia 20 e de repente… prateleira.

Prateleira! Encarando uma saída improvável, voltando a fazer as malas, quebrando um elo familiar para se instalar longe da mulher e filhos, a muitos quilómetros de distância. Isto para quem quer, porque a porta da rua está ali bem à vista.

Desculpe-me o desabafo mas não me parece justo. É que são muitos, sabe? E dá-me a sensação que convencido que está a fazer o que deve ser feito, é capaz de estar a rebelar contra si aqueles que o ajudaram a estar onde hoje está. Nestas coisas é preciso cuidado… A ver vamos.