Desabafos de Marvão

O convite de um amigo para desabafar na Rádio Portalegre, todas as quartas, às 7.30h, 10.30h, 13.30h, 17.30h, 23.30h, levou-me também a criar um espaço, na blogosfera, onde possam ficar registados os textos da versão radiofónica. Espero que gostem e já agora, se não for pedir muito, que vos dê que pensar. Um abraço...

A minha fotografia
Nome:
Localização: Marvão, Alentejo, Portugal

Um rapazinho de Marvão

quinta-feira, maio 24, 2007

Os Desabafos terminaram.

Mas a vida continua...

Aqui - http://vendoomundodebinoculosdoaltodemarvao.blogspot.com/

Bem vindos!

terça-feira, maio 22, 2007

34º Desabafo – 22 de Maio de 2007 – “Farewell, Goodbye!”


E eis que ao fim da trigésima quarta jornada, nos encontramos no término da temporada 2006/2007 da rubrica “Desabafos”. Foi um desafio muito motivador mas bastante exigente pela regularidade e pela necessidade de uma produção semanal constante. Devo confessar-vos que mesmo para uma pessoa como eu, naturalmente extrovertida na fala mas que se encontra mais cómoda do que nunca no acto solitário da escrita, foi por vezes difícil cumprir este repto da forma que seria mais desejada… ou porque os compromissos familiares e profissionais obrigavam a longas incursões noite dentro, na árdua tarefa produtiva; ou porque a semana foi parca em assuntos de interesse; ou porque os próprios temas davam mais ou menos azo a desenvolvimentos. Não foi, de facto, fácil.

Eu que sempre que pude fiz um esforço para acompanhar as crónicas bem fundamentadas dos meus ilustres colegas de tribuna, sei que provavelmente adaptei um estilo mais pessoal, mais informal, menos político, menos directo que os seus. Sei que fui de alguma forma criticado por particularizar demasiado, por adoptar um cunho vincadamente pessoal mas isso acaba de alguma forma por ser indissociável da minha própria maneira de ser e de viver. Sendo a crónica o mais livre de todos os estilos, aquele em que nos podemos livremente apropriar de trejeitos e maneirismos, de truques e artimanhas para enaltecer ou defender uma visão muito pessoal da realidade, fiz sempre por tentar levar um pouco de mim para que também os outros se pudessem entregar na sua própria análise.

Sei que por vezes fui demasiadamente extenso, mas a paixão fala mais alto e como diz o povo, “conversa puxa conversa”. É fácil deixarmo-nos levar ao sabor da pena ou ao longo do teclado, conforme calhasse melhor.

Às vezes fui insólito e controverso e foi nessas alturas que mais tive o grato prazer de ser questionado por opiniões diferentes da minha. Sim, porque o grande objectivo desta empreitada, se bem se lembram, sempre foi, mais do que convencer, o fazer pensar, o fazer reflectir e o contribuir para a discussão.

Outras vezes fui polémico e deixei à solta uma certa rebeldia latente reconhecida por quem me conhece bem, mas entreguei-me sempre de alma e coração e esforcei-me por dar o melhor de mim numa perspectiva abnegada.

Foi um longo processo de aprendizagem pessoal que se desenrolou continuamente na medida em que me levou muitas vezes a arquitectar conjunturas e estratégias, a reunir argumentos e a dissecar possíveis temas a abordar, nas horas e nos sítios mais improváveis.

Em jeito de conclusão e porque vem na mesma linha de raciocínio, gostaria de vos falar numa amizade que fiz recentemente e me ajuda, de alguma forma, a ilustrar o que me vai na alma neste derradeiro comentário.

Conheci o Paul num final de tarde, no Café do Manuel Ventura, quando um imenso pôr-do-sol dourado envolvia a paisagem de Marvão e os primeiros grandes calores do ano se faziam sentir. Há poucos dias, pois. O Paul, do alto do seu metro e noventa e os seus, presumo eu, cinquenta e muitos anos de idade, correspondia visualmente àquilo que muitos de nós preconcebem como um inglês típico. Mais típico que ele deve ser, na verdade, impossível, porque nem os chinelos de Verão com meias de Inverno por baixo falhavam. A franja grisalha adornava-lhe a testa e caía de par em par para os lados, antes de se aninhar atrás de duas orelhas bem britânicas. Tinha um ar simpático e o seu sorriso aberto mostrava a dentição desalinhada e amarelecida por tanto chá, digo eu. Detrás dos óculos graduados, fitava-nos um olhar atento e vibrante que acompanhava tudo aquilo que dizia.

O Paul é proprietário de uma peixaria no sul de Inglaterra e é já um inveterado por Marvão, para onde se retira desde há alguns anos a esta parte, para dar largas à sua grande paixão: a pintura. Detentor de um extraordinário british accent, debitava na estilosa pronúncia cockney, um inglês muito difícil de captar aos primeiros minutos. Mostrou-se de trato afável e muito sociável, exprimindo desde logo a sua admiração pelo nosso burgo que eu me esforçava por traduzir aos meus interlocutores imediatos que a ouviam com a mesma atenção com que ouvem um relato de futebol. Contou pormenores das suas anteriores estadias, falou do seu octogenário pai que desta vez ficou por terras de sua majestade e revelou o seu ecletismo ao recordar os concertos de música clássica que via em Londres e as exposições que devorava sempre que podia. Falou-me de Picasso e Monet, de El Greco e dos seus heróis das tintas e dos pincéis.

Disse-me que em relação à vila de Marvão, o que mais o impressionava era a luz e que a sua grande ambição era conseguir captar na tela a forma com as diferentes tonalidades se fundem na linha do horizonte, o que na minha tabela classificativa, o fez subir ao topo e me deixou com um nível de expectativas enormíssimas quanto ao seu talento. Educado e respeitador, convidei-o a assistir à emissão em directo da Antena 1, a partir do nosso castelo, na qual aguentou estoicamente a conversa da qual não percebeu patavina, para poder de seguida admirar o talento imensurável do novo “Quarteto em Mim” que há dias deslumbrou Portalegre. “They’re absolutely gorgeous”, disse-me emocionado no final, com a satisfação no rosto de um faminto que acabou de devorar um “bife à Portugália”.

Fui-me cruzando com ele por diversas vezes, tendo sempre o extremo cuidado de não incomodar a sua catarse criativa. Via-o ao longe, com uma enorme quantidade de tintas e pincéis espalhados à sua volta pelo chão. Punha-se de pé, ria-se da perspectiva, encenava um bailado criativo que era engraçado de se contemplar, sobretudo quando gesticulava as formas abstractas que desenhava no ar. A minha ansiedade de poder vislumbrar um rabisco que fosse era enorme e fui-me aguentado como podia. Ele sorria e dizia que sim com a cabeça, o que para mim significava que a coisa ia. Nunca quis ser indelicado e ia aguardando. Até ao dia em que o vi sentado de frente à Pensão D. Dinis, prontinho para a plasmar no papel. Chamou-me. “Wanna take a look?”. “Sure!”, respondi, apressado. Acho que ganhei então a sua confiança. Não devo ter conseguido disfarçar a desilusão estampada no rosto quando cheguei ao pé. Sei que não sou entendido em pintura, e longe de mim querer julgar alguém pelo que faz mas o que vi então, não era nada do outro mundo, acreditem. O pobre, presumo que acometido pelo desalento disse-me: “it’s only a draft!”. “Oh, I see”, respondi-lhe esperançado e retribuindo a simpatia num sorriso, porque mesmo que fosse apenas um rascunho… era, acreditem, um mau rascunho.

Aquilo deu-me que pensar e lembro-me de ter ficado por diversas vezes a admira-lo em silêncio, sem que me visse, ao longe, vendo o prazer que parecia estar a ter. Transmitia-me a clara sensação que poderia ficar ali o resto da vida, agarrado aos seus tarecos.

Dei por mim a pensar na lição do Paul que é no fundo um espelho daquilo que tentei fazer aqui nos desabafos: o trabalho final pode não ser grande coisa, mas o prazer que retirei fez tudo valer a pena.

E no fundo, na nossa própria vida, o segredo para a felicidade de que tantas vezes aqui falei, pode ser mesmo esse: “não nos preocuparmos tanto com o resultado final, mas mais com o prazer que sentimos ao longo do percurso, vivendo cada dia como se fosse o último!”.

Nunca gostei de despedidas. Preferi sempre um “até já” ao triste dramatismo de um “adeus”. Foi o que disse ao Paul e é o que digo a todos os ouvintes e leitores que me acompanharam ao longo de todo este tempo, agradecendo em especial aos que tiveram a amabilidade de a mim se dirigirem, para me felicitar por uma ou outra mensagem, para me dizerem que me compreenderam, para me contestarem, para me incentivarem e para serem a minha maior motivação. Um grande BEM HAJAM e até sempre! Oxalá nos voltemos a encontrar por aí um dia, nas curvas e contracurvas das nossas vidas.

terça-feira, maio 15, 2007

33º Desabafo – 16 de Maio de 2007 – “Os reveses da fortuna”


Embora não passe de uma ideia, a possibilidade de estar no sítio certo à hora certa agrada a quase toda a gente. Já muito se escreveu e se falou acerca desta contingência que sendo apenas uma mera coincidência ou fruto de uma extraordinariamente rara conjugação astral, tem a apetecível capacidade de mudar, em apenas alguns segundos, a vida de qualquer um. Nos filmes, nos livros e até nos jornais, chegamos a comover-nos com os relatos emocionados de aqueles que passaram em fracções de segundos e por mero acaso, a olhar para a estrada da vida com uma perspectiva completamente diferente. Nos dias que correm e não deixa de ser um sinal dos tempos, estes novos filhos da fortuna nascem muitas vezes pela via do famoso boletim, onde se colocam as cruzinhas com a precisão de quem faz um Arraiolos secular, descobrindo a combinação que lhe escancara as portas da fortuna e do paraíso na terra. Estando no sítio certo à hora certa…

Acerca desta temática, não resisto a partilhar convosco uma história que me aconteceu há muitos, agora que penso nisso, parecem mesmo ser muitos anos, talvez há mais de quinze. Na minha adolescência vivi sempre muito próximo de uns primos paternos que habitavam na minha aldeia. Como tinham casa no Algarve e lugar de sobra no apartamento, convidavam-me sempre para acompanhá-los nas férias, o que me sabia que nem ginjas porque geralmente quando regressavam, em Setembro, era quando avançava a minha família para a mesma Armação de Pêra, fazendo de mim, à mercê da sorte, um veraneante de pleno direito e a tempo inteiro.

Em dada altura e quando chegados à praia, sempre, sempre só depois de almoço e depois de descanso apressado para nos recompormos das longas noites algarvias, apercebemo-nos de um boato que inundou literalmente a praia: dizia-se então que um famosíssimo empresário na área das máquinas de diversão que por acaso era nosso conterrâneo lagóia, tinha perdido, num mergulho mais descuidado, os seus óculos de estimação com armação de avultado valor sendo que na opinião de alguns veraneantes eram banhados a ouro, enquanto outros juravam a pés juntos serem totalmente maciços, amarelinhos, caríssimos!, apesar de nunca sequer os terem visto antes. Mas bem, sabem como é esta história dos boatos, ainda a verdade se está a vestir para sair de casa, já o boato deu duas voltas ao bairro. O que aumentou ainda mais a loucura que se seguiu em toda a praia, foi o facto de fontes seguras terem adiantado que haveria uma recompensa interna, proposta aos dois filhos varões do perdulário progenitor, caso encontrassem o bendito par de gafas. Debaixo dos toldos e dos guarda-sóis, falava-se em cifras astronómicas que fizeram empolar o valor do objecto. Enquanto uns já lhe incrustavam raras pedras preciosas, outros falavam da sua impressionante carga aurífera, sendo que o que ia tornando esta na caça ao tesouro mais louca das últimos anos foi a notícia que a recompensa não estava confinada às paredes do lar mas se estendia a quem os encontrasse, fosse ele quem fosse. O meu grupinho de amigos de Verão não escapou à febre e também ali, deitados nas toalhas à lazeira do sol e de corpos salgados, não se falava noutra coisa. Em longas tardes de debate, desenharam-se no ar os inúmeros cenários possíveis com propostas mais ou menos clarividentes. Definiram-se estratégias, estudaram-se as marés, reconstituíram-se os passos do suspeito antes de entrar na água (afinal ele costumava ficar bem perto de nós), enfim, passou-se o tempo com ânsia e a tarde de trabalho terminava sempre com relatos das enormes jantaradas só de marisco que haveríamos de fazer um dia quando a massa estivesse do nosso lado. Não! Esta não nos podia escapar!

Mas passaram-se os dias e nada. A busca desvaneceu. O assunto de moda na praia mudou e também nós, os últimos resistentes, já pensávamos que os benditos óculos ficariam para sempre perdidos na imensidão azul do fundo do mar, arrastados pelas marés e pelas correntezas profundas, para engrandecer ainda mais os incalculáveis tesouros de Neptuno, presos na gruta de uma sereia ou no casco de um galeão submerso, daqueles que só vemos nos documentários do National Geographic. Até que num fim de tarde desacreditado, quando todas as esperanças se esfumavam e um pôr-do-sol dourado inundava toda a baía, decidi dar um último mergulho solitário antes do regresso tardio a casa, enquanto os demais colegas arrumavam o estojo. Ao caminhar no areal, um dos três banhistas nortenhos que desfrutavam, resistentes e divertidos, das águas tépidas do entardecer, gritou de espanto, deixando escapar algumas vociferações ao pisar um objecto estranho que se encontrava submerso. A princípio, não sei se por tanto tempo já ter passado, não associei os factos, mas assim que ouvi o relato admirado que fez aos seus pares, estranhando uns óculos amarelos ali bem à mão de semear, virei-me quase por instinto e respondi apressadamente que eram meus, agradecendo enquanto recuperava a carga valiosa e saindo de cena quanto antes sem lhes dar tempo de perceber como é que um rapazinho tão jovem ousava usar um modelo tão rebuscado. É claro que à medida que me aproximava da restante pandilha com ar vitorioso, para ser recebido em êxtase absoluto, já ia mentalmente elaborando a minha versão da descoberta, aliás, a única versão, a versão oficial do achado até à revelação de hoje, em que havia um único totalista heróico. Eu próprio me desloquei à residência de férias do senhor e devolvi em mão o seu a seu dono tendo então a devida recompensa ficado em stand by durante diversos dias de expectativa e incertidão para todo o grupo: “saberei agradecer”, disse ele. Até que chegou uma manhã em que alguém se dirigiu a mim e me convidou a chegar perto do retiro balnear do nosso amigo que para espanto meu, retirou de um saco um embrulho quadrangular, de formas suspeitas e a deitar por terra todos os planos por nós elaborados. Agradeci submisso e resignado e regressei tentando disfarçar o ar cabisbaixo que encheu de espanto a minha comitiva que há minutos se tinha despedido de mim com palmadinhas nas costas e de piscadelas de olho. Era um tabuleiro de xadrez. Um tabuleiro de xadrez. Mas não um tabuleiro qualquer, senão um daqueles de fim de colecção, com uns anitos em cima (apesar de impecavelmente novo) como os que se vendiam então na rua do comércio. Desde então, a minha noção de estar no lugar certo à hora certa é um pouco mais assombrada e vaga.

Mas se é assim estar no lado certo, bem pior será certamente experimentar a terrível sensação de estar no local errado, à hora errada e muitos desses relatos têm-me chegado agora através da imprensa escrita. Da ruptura do antigo director do jornal Expresso com o patrão Balsemão, nasceu um semanário Sol que acalentou válidas expectativas mas se revelou uma difusa versão “Correio da Manhã” do semanário de referência. Ainda assim, apresentou algumas inovações dignas de realce, uma das quais confesso, me passou ao lado nos primeiros números e tem por título “Conversas na prisão”.

Aceito que possa ser preconceito, mas a verdade é que desde criança sempre pensei que só ia preso quem fosse de facto muito, muito mau e merecia a sorte de se ver privado do valor absoluto da liberdade. Nestas “conversas na prisão” tenho-me apercebido que nem sempre é assim, tenho aprendido que muitas vezes, a linha que separa a legalidade da marginalidade é muito ténue e que basta um golpe trágico do destino para fazer até o mais exemplar cidadão cair na desgraça de ver ruir à sua volta o que levou anos de árduo sacrifício a construir.

Bem sei que muitos dos que se vêm ali retratados nasceram com má estrela e não conheceram na vida outro caminho que não o fora-da-lei: foram crianças maltratadas e abusadas pelos pais, obrigadas a roubar e a lutar para sobreviver, ou até por vezes, pais e mães cativos da sôfrega dependência dos seus filhos, impelidos na sua voluntária paternidade a darem o que tinham e não tinham, a colaborarem como correios ou passadores para poderem angariar os fundos que alimentavam a sua própria desgraça. Desses, infelizmente, já todos ouvimos quase tudo.

Mas as que a mim mais me impressionaram, foram precisamente as histórias dos que viram por erros tantas vezes momentâneos, a roda da sua vida dar uma volta de 360º. Recordo a história do professor de aeróbica e do amigo que mesmo sem consumirem álcool ou drogas, levaram a diversão de um aniversário ao limite de se vestirem de agentes da autoridade em rusga informal por entre as prostitutas das ruas de Lisboa e acabaram por se exceder na encenação trágico-cómica que roçou o abuso e a extorsão e os engavetou de vez. Lembro também a história do cidadão pacato, perseguido pela cega teimosia de um outro, de maiores proporções e enorme aversão, que culminou com um confronto nocturno de trágico desfecho quando a navalha tantas vezes usada para um petisco com amigos ou para um lanche informal, perfurou mortalmente o coração do Golias, num golpe certeiro e movido pelo medo e pela raiva, que colocou o frágil autor atrás das grades.

Mas de todas os relatos, impressionou-me sobremaneira um recentemente publicado, de um electricista da Figueira da Foz que num acidente num entroncamento vitimou dois peões, um dos quais viria a falecer no hospital. Apesar de ainda hoje defender que foi uma falha mecânica que esteve na origem da ocorrência, nunca o conseguiu provar em tribunal e acabou ele por ser traído por dois copos de vinho e um meio Whisky, que originaram os 0,71 l/g detectados no teste de alcoolemia e se traduziram numa pena de dois anos e meio de prisão por homicídio por negligência. Estar no sítio errado, no momento errado pode significar isto mesmo, que duas ou três imperiais bebidas de relance com um amigo que não se vê há muito, podem mesmo ser veneno fatal que nos pode matar ou marcar para sempre. Neste caso concreto, o visado teve a coragem de, assim que teve conhecimento que o seu recurso não iria ser atendido, se ir entregar à prisão que lhe parecia mais conveniente, depois da análise exaustiva de quase todas elas e porque nunca teve inibição real de conduzir.

Passou assim, num breve espaço de tempo, de respeitado pai de família a assassino a abater, a ser a escória, um pária, um condenado ao ostracismo.

E o que mais me preocupa no final é que, seja por ciúme ou vingança, por ódio ou excesso de zelo, por descuido ou inadvertência, caminhemos tantas vezes no limite de tudo sem que nos apercebamos que às vezes, o perigo espreita mesmo ao virar da esquina e a facilidade com que a sorte pode mudar, para sempre.

terça-feira, maio 08, 2007

32º Desabafo – 9 de Maio de 2007 - Viagem da Madeira, passando pelo horror algarvio e de bicicleta para o CAEP


A estas horas, Alberto João Jardim deve estar a rebolar-se de gozo em júbilo absoluto, fazendo caretas aos do “contenente”, como ele gosta de nos chamar, brindando de tacinha na mão, rindo-se da nossa carita de parvos. Enquanto o governo cá do sítio nos impinge congelamentos de carreiras e sacrifícios redobrados num esforço suplementar para atingir metas e parâmetros que não nos envergonhem perante os nosso parceiros europeus, o dono e senhor dos reinos da Madeira grita, de barriga de fora e de olhos esbugalhados, em cada inauguração que amealha, que lhe reforcem a mesada para que a obra e o desenvolvimento para os seus seja cada vez mais e melhor.

Assistimos assim impávidos e serenos, todos nós, desde a mais alta figura de Estado ao mais débil contribuinte, à constante onda de insultos e provocações, pagando e calando, com a passividade do caixa de óculos da turma que entrega os seus melhores berlindes de mão beijada ao gordo desdentado do ano a seguir. O homem deu-se ao luxo de se despedir para regressar e voltar a tomar conta do galinheiro perante a passividade geral, brincando com estatísticas e votações, embaralhando e voltando a dar com a certeza de quem sabe que os trunfos lhe voltarão a sair em mão.

E o que mais me impressiona no meio desta história toda é que na Madeira não vivem só as pessoas de baixos recursos que vemos eufóricas nas desbundas etílicas em que se transformam geralmente as suas campanhas e os seus comícios. Na Madeira vivem também muitas pessoas informadas e preocupadas, muitas pessoas que acompanham o processo de perto e que só podem ser coniventes com a situação porque o motivo que têm é muito forte e não pode ser outro que não o preço do progresso. Para obter aquelas percentagens, deve haver muito boa gente que faz figura de mulher traída e finge não saber de nada para poder manter a ostentação e o luxo, esquecendo que partilha a cama com quem a trai, aguentando estoicamente o ogre obsoleto que dirige os seus destinos.

Todos sabemos que por detrás daquele Carnaval mediático, há muito envelope e muito compadrio, muita conivência e muito jogo duplo. Políticos e empresários de provas dadas na nossa praça, que o criticam e repudiam nos ciclos mais íntimos de amigos, curvam-se com subserviência perante a eminência parda, quando o bailinho lhe agrada e os ajuda a engordar os extractos. Meus amigos, os parvos pedem a Deus que os leve! O mundo é mesmo assim e está bom é para estes que se sabem desenrascar. Isto não são tempos para éticas e etiquetas. Em tempo de guerra não se limpam armas e como dizia o velhinho: “os que sobrevivem não são ao mais espertos, mas sim os que melhor se sabem adaptar às situações”. Toma lá que é democrático!

Cá pela península, o drama da pequenita Madeleine McCann, roubada do seu leito familiar por mãos malévolas enquanto dormia, enche-nos de horror. Não acredito que haja alguém no mundo que seja pai ou mãe e não suspire bem no fundo do coração cada vez que houve uma história assim, ao imaginar por cruéis fracções de segundo que o desaparecido poderia ser o seu ou a sua. Não deve haver nada mais doloroso que ver partir um filho na frente ou saber que se perdeu para sempre.

Mas quem foi o pai ou a mãe que num dia qualquer de mais movimento ou mais confusão não sentiu, por milésimas de segundo que fosse, a terrível angústia de não os ver por momentos? Quando num centro comercial, num espectáculo, numa piscina ou romaria, de vez em quando lá vem aquele aperto mitral, aquela dor tão funda de não a ver, de sentir ter sido fintado pela sua vertiginosa rapidez natural e espontaneidade. Mas o sentimento de alívio que se segue quando o olhar os localiza, tranquiliza-nos e faz-nos sempre esquecer como foi, porque na verdade, é impossível estar sempre perto.

Comentei há dias as palavras de um notável pedagogo espanhol de visita ao nosso país para apresentar o seu último trabalho. Dizia ele aos micros da rádio em jeito de conselho final que “não tentem ser uns pais perfeitos. Deve ser terrivelmente entediante”. E nós sabemos que à medida que eles aprendem a crescer, nós aprendemos a educá-los. É um processo bilateral que decorre em paralelo e onde acertamos sempre por tentativas e erros. Bem sei que muitos apontam já neste caso, o dedo acusador aos progenitores por terem deixado os rebentos a sós. Confesso que não sou capaz de o fazer. Provavelmente não os deixaria assim, mas tampouco sou capaz de lhe apontar seja o que for. Estavam próximos, tinham contacto visual com a entrada, vigiavam-nos visualmente de meia em meia hora, não se pode dizer na verdade que tivessem sido displicentes mas sim presas fáceis para um lobo vestido com a pele de cordeiro. Não tenho a pretensão de ser inspector da Pêjota e longe de mim querer ser dono da verdade, mas estes olhinhos que a terra há-de comer já passaram centenas de horas colados ao ecrã, seguindo policiais e séries do género. Na minha cabeça e no cinema, já aprendi também a apanhar muito malandro e fascina-me o poder entrar na sua mente para saber como pensam. Nunca mais me esqueço da grande certeza que fundamenta o edifício do ex-libris do género, pelo qual sou tão apaixonado. Se bem se recordam, no “Silêncio dos Inocentes” de Jonathan Demme, a agente Clarice Starling era ajudada por um psicopata que lhe deu a pista-chave para capturar o assassino do momento: “ele quer aquilo que cobiça e só se pode cobiçar aquilo que se vê”. Cá para mim, a solução pode muito bem ir por aqui. A forma como o crime foi posto em prática revela um conhecimento profundo dos hábitos da família; a quase total ausência de pistas denota uma apurada planificação e uma actuação metódica; a escolha de apenas um dos três filhos revela que o desejo mandou mais que o dinheiro, que o alvo do rapto estava já previamente definido. Palpita-me que o cérebro, se não também o executante, pode bem ser conterrâneo dos visados. Resta-nos apenas desejar que fosse quem fosse, que seja apanhado a tempo e horas de a salvar.

Duas notas finais para o distrito. A primeira, a pedido de muitas famílias, para felicitar os Ases do Pedal por mais uma excelente maratona, num fim-de-semana que invadiu Portalegre de bicicletas e desportistas e nos colocou bem no centro das atenções de todo o país. Quase cinco mil participantes numa das maiores provas do género realizadas no continente europeu, feita quase exclusivamente por amadores e amantes da modalidade. Coisa rara nos dias que correm, afinal ainda há associativismo para quem acredita. Organização apurada e milimétrica de orgulhar todo o distrito. Um abraço muito especial para o meu amigo Vilela e para a sua rapaziada, sempre bem disposta e cooperante onde quer que vá, fomentando amizades e boa onda. Um chapada de luva branca no pretensiosismo de muitos passarões nacionais que se dizem profissionais na organização de eventos, provando que vale mesmo sempre a pena quando a alma não é pequena e que grande é a paixão desta malta!

Outra nota altamente positiva para o nosso Centro de Artes do Espectáculo, para a Câmara de Portalegre, para o vereador Polainas e sobretudo para o grande Joaquim Ribeiro, tantas vezes escondido na sombra da sua nobre timidez e profissionalismo, mas sempre ao mais alto nível numa programação digna de capital. Ainda há poucos dias ali me arrepiei com esse enorme Camané que provou a uma sala cheia, por A+B, que os homens podem ser gigantes de tamanho sendo pequenos de altura; e já agora me deleito entusiasmado ao sorver a informação dos cartazes do que vem a seguir: grande teatro, grandes concertos, grandes espectáculos! Os novos valores e os talentos consagrados, a fina flor da fruta em termos de produções nacionais e internacionais, la créme de la créme mesmo à mão de semear. Bem hajam e que nunca baixem a guarda porque nós vamos ficar redondinhos de tanta fartura e vamos sempre querer mais!

terça-feira, maio 01, 2007

31º Desabafo – 2 de Maio de 2007 – À procura de nós próprios


Passamos pouco tempo connosco.

Falamos pouco com nós próprios.

Vivemos a correr e nesse vai-vem acelerado mal damos pela nossa existência.

Quando chega ao fim do dia e nos deitamos, assim que pousamos a cabeça na almofada, sucumbimos atordoados ao cansaço acumulado que descarregamos num sono profundo. Dormimos a correr, para que possamos acordar cedo e temos com frequência que fintar as insónias inconvenientes que espreitam sempre oportunas, por uma ida à casa de banho a meio da noite, para nos estragar o dito repouso. É nessa inesperada cilada nocturna que muitas vezes temos de enfrentar as preocupações que fingimos esquecidas durante o dia. De manhã, assim que toca o despertador e mal abrimos os olhos para receber a primeira luz, já a cabeça leva meio organizada a nossa agenda, dando-nos instruções para o resto da jornada, para que nada falhe.

O relógio não perdoa e as primeiras horas da manhã são tudo menos fáceis. O cenário é sempre mais preocupante para quem tem filhos pequenos e se forem mais que dois, a ajuda suplementar é sempre mais que aconselhada. Entre acordá-los, lavá-los e vesti-los, entre o pequeno-almoço e a repetição das mesmas tarefas connosco, gastamos de rajada grande parte das reservas de energia acumuladas para todo o dia.

Chegamos aos empregos cansados, muitas vezes sem vontade de aturar o chefe e os colegas, os funcionários e os clientes e levamos a jornada de empreitada para ver se nos despachamos mais depressa mas, nem por isso.

Dali corremos para casa com paragem obrigatória para apanhar a descendência no Jardim-Escola, Infantário ou Ludoteca mais à mão. Quando ali chegados, iniciamos nova ronda de trabalhos acrescidos: as senhoras com a preparação dos jantares, os maridos que chegam sempre um pouco mais tarde, apoiando nos deveres ou em arrumações de última hora e isto se forem o suficientemente prestáveis.

Nas viagens de carro não falamos porque o rádio não nos deixa. Às refeições não nos ouvimos uns aos outros porque a televisão que já nos invadiu os quartos, reina à muito mais tempo nas nossas salas e cozinhas. No serão, mergulhamos cada um nos seus entreténs: o homem no jornal ou na bola, a senhora na novela ou no trabalho manual, o petiz ou a princesa no Nenuco ou na Playstation e no encerramento dos trabalhos, é virar e dar outra vez.

Por vezes vivemos dias inteiros sem olharmos bem nos olhos uns dos outros.

Quase sempre o que interessa é o tamanho do plasma na sala, a gama da viatura, os requisitos do portátil, o destino de férias, a escola de línguas, as toilettes e o chalet. Mas quantos de nós não terão ainda ouvido da boca de um amigo, de um vizinho, de um familiar ao qual a saúde ou a sorte ou as duas pregaram uma partida e esteve por momentos mais para lá do que para cá, que passou desde então a ver a vida com outros olhos, a prestar atenção aos pequenos pormenores até aí insignificantes: o som e o cheiro da chuva a cair na terra batida, a respeitosa imensidão do mar, o canto divino do rouxinol (como o que vive agora junto a minha casa), um pôr-do-sol numa tarde de Verão, a luz do luar numa noite fria de Inverno, o frescura de um gelado comido num relvado debaixo de uma árvore em Agosto, o sorriso de quem nos ama.

Lamechices, dirão alguns. Certamente, mas até ver. Também o outro dizia que a todos chega o tempo de acreditar em Deus: a diferença é que uns acreditam a vida inteira, outros só quando a vêm a abalar, mas mais cedo ou mais tarde, todos lá vão bater.

Já estamos em Maio. Por falar nisso e para os católicos, Maio é o mês dedicado a Maria. Porque vem a propósito, recordo que há cinco anos atrás, precisamente por estas alturas, fui a Fátima a pé, sozinho, com uma mochila às costas. Não fui pagar uma promessa. Não fui cumprir um desígnio específico. Não fui numa missão negocial. Fui sobretudo em sinal de agradecimento e de minha livre e espontânea vontade.

Sei que para muitos este é um assunto controverso. Quem não acredita sentir-se-á certamente tentado a desligar da conversa, mas penso que nestas questões de fé, deve sobretudo prevalecer o respeito. Para mim, a fé está muito para além da existência da própria divindade. Há muito que defendo que a essência da fé está dentro do homem e potencia-se na sua capacidade de acreditar e de se superar.

Para Fátima pois, de sacola às costas, comendo onde calhava e dormindo onde era possível. Nada tenho contra os peregrinos que avançam em grupo, que cantam, falam, convivem e rezam durante o percurso. Mas esta foi para mim, sobretudo uma jornada de silêncio e de busca, de pensamento e de descoberta interior. Voltando ao princípio da nossa conversa, sobre o tempo que passamos connosco, foi então que descobri a importância desse diálogo. Caminhando durante todo o dia, durante quatro dias, das 9 às 18h, passei a minha existência a pente fino. Sem um rádio, sem uma companhia, nada me restava senão esse ilustre desconhecido que vivia em mim e muito alcatrão pela frente.

Costuma dizer-se que quando corremos um grande perigo, vemos a nossa vida passar-nos à frente em fracções de segundo. Nesse caso, foi uma degustação mais lenta, de muitas, muitas horas de recordações, conjecturas e suposições, desabafos, argumentações e conclusões. Sozinho nessa estrada onde ninguém me conhecia, longe de tudo e de todos, distante do conforto e do aconchego do lar, mergulhei em mim e quis saber mais.

Sei que foi um dos desafios mais arrojados a que me propus, mas a sensação de paz e o alívio do dever cumprido, no final, tranquilizaram-me. Sentado na imensa escadaria do Santuário, admirando um pôr-do-sol dourado que enchia todo a Cova da Iria de luz, pensei que poderia ficar ali para sempre.

No final desta missão, olhei para dentro e vi-me a mim. A recompensa foi conhecer-me um pouco mais e talvez melhor do que nunca.

Aprendi então uma lição que me esforço todos os dias por não desaprender: que é preciso fazer um esforço diário para não perdermos o fio condutor que nos leva a nós próprios.

É por isso que é tão importante fazermos um exame de consciência ao nosso dia antes de dormirmos, revendo o que fizemos de bom e onde estivemos pior. É por isso que é tão recomendável que programemos o nosso dia tranquilamente, antes de nos levantarmos, para que nos possamos superar. É por isso que devemos fazer umas caminhadas solitárias, para arrumar o sótão e prepararmos a jornada.

Por falar nisso, caro amigo(a), há quanto tempo não tem uma conversa consigo?

terça-feira, abril 24, 2007

30º Desabafo – 25 de Abril de 2007 – Dias de Romaria


Quando o mês de Abril chega a meio, quando os dias se “esticam” em tardes longas já armadas em soirées de Verão, quando se aproximam os dias vinte, começa a cheirar a festas de São Marcos na minha terra natal adoptiva, Santo António das Areias. Esta realidade não será certamente muito diferente da que se verifica por essas terras do distrito e do país fora quando chega à altura do ano em que tempo é de homenagear o padroeiro ou a santinha da devoção.

Nestes tempos de São Marcos dei por mim a pensar em contingências / trivialidades que só dão mesmo vontade de desabafar…

Não querendo ser pessimista nem desolador, não querendo voltar a tocar na ferida a despropósito, não consigo evitar partilhar convosco a tristeza que me invade ao ser testemunha ocular da morte do interior e de todo um modo de vida. Por mais que digamos que não, que pode ser que a coisa mude, que a esperança é a última a morrer… pouco ou nada há a fazer para evitar o inevitável, e dói mesmo muito. Ao olharmos em volta, vemos que as pessoas são cada vez menos, cada vez mais idosas, a viver com cada vez mais dificuldades e ou acontece um milagre aqui e agora e já, ou o desfecho está bom de se ver. Já não me lembro do tempo em que a festa de São Marcos tinha um cunho marcadamente agrícola e rural, em que se benziam os animais e se pedia à divindade que protegesse campos e culturas, sementeiras e criações. Não sou desse tempo mas lembro-me bem quando era miúdo, de ver por aqui nestas alturas, muitas, muitas barracas e diversões que só nos visitavam precisamente a razão desta efeméride. Havia carros de choque e carróceis, barraquinhas de tiro ao alvo e ginjinha, muita pipoca e algodão doce e até o jogo da derruba das latas de refrigerantes com as meias cosidas, que qualquer um de nós podia recriar quando quisesse em casa, mas tinha ali outra magia, capaz de sacar um sorriso irónico da loura platinada que servia de assistente ao ver uma carambola bem medida. De ano para ano, vêm cada vez menos feirantes, cada vez mais tímidos e encolhidos, a queixarem-se que aquele já foi chão que deu uvas. A coisa chegou a tal ponto que se abalasse a roulotte das bifanas, se partisse a meia dúzia de marroquinos com tecnologia made in loja do chinês e se tirássemos as luzes da Praça, nem parecia que vivíamos a festa maior da maior das localidades do concelho em termos populacionais.


Mas em tempos de São Marcos percebi também que nem tudo é mau, que ainda há pessoas capazes de desinteressadamente se reunirem e trabalharem por um objectivo comum, pessoas que sem terem a certeza de um retorno imediato se dedicam a causas em que acreditam, deixam família e ócio para trás, ficam a dever muitas horas de sono à cama e batem o pé quando é preciso para organizarem um bom bailarico, um torneio de malha, um convívio de tiro ao prato ou mesmo uma bela tourada à antiga portuguesa capaz de encher a nossa praça outra vez e que bonita que estava!

Nestes dias de São Marcos em que a palavra de ordem é, mais que viver, conviver, nestes dias em que saímos de casa e procuramos uns pelos outros, confirmei a minha teoria que esta invenção do euro é uma espécie de doença de laboratório que os economistas das europas inventaram para nos explorarem um bocadinho mais. Ai que saudadinhas dos meus escudos… Como diziam as senhoras do anúncio, eu ainda sou do tempo em que quando se andava com uma notita de quinhentos no bolso, estava-se mais que garantido e até dava para assobiar e agora, com os arredondamentos mais que mágicos é ver as de 20, as de 10 e as de 5 a voarem do bolso para fora para nunca mais voltarem. E não me amolem nem me venham chamar retrógrado e antiquado porque com cafés a 140 paus e toda a gente bem disposta, não há bolsa nem conversão que resista.

Nestes dias em que se sai mais e se vê menos televisão, reparei que o mundo está cada vez mais parecido com as novelas brasileiras querendo eu dizer com isto que mesmo que se falhem 10 episódios, não há qualquer risco de perder o fio à meada porque gira o disco e toca o mesmo! Em 5 minutos de um noticiário de relance enquanto se mastiga qualquer coisa, vêm-se massacres desvairados nos Estados Unidos (que se auto-intitulam os mais civilizados do mundo e onde só não anda de pistola à cintura quem não quer!); lutas fratricidas na facção mais há direita da nossa direita política, caças ao skins por cá e aos votos em França, mortes, bombas e destruição, a cabeça do Fernando Santos numa bandeja; a campanha quase colonialista do Alberto João e uma ou outra variedade no final para terminar com um espírito bem disposto como convém.

Nestes dias fui também a Espanha em missão profissional com um amigo que por lá viveu e os conhece como ninguém e fiquei com vontade de emigrar quando me explicou a forma como os hermanos organizam os seus dias. Começam a jornada de trabalho às nossas 8 da manhã e largam à nossa uma para retomarem apenas no dia seguinte. Quando saem do serviço não dispensam o copo e o petisco de convívio com os amigos e colegas de trabalho, almoçam às duas da tarde… e depois? Depois nunca falham a famosa siesta e no resto do dia? Pergunto eu. No resto do dia? Vivem, que é o que nós tantas vezes nos esquecemos de fazer! Fazem o que lhe der la gana e quando trabalham, trabalham a sério porque só assim se explica os índices de produtividade e rendimento que fazem de Espanha uma das grandes potências da Europa, deixando-nos tantas vezes a tossir na poeira do seu rasto.

Nestes dias de São Marcos e enquanto regressava embrulhado nestas minhas conjecturas, olhei para o cartaz das festas e para o grande baile de terça-feira, animado por uma óbvia orquestra espanhola e dei por mim a pensar se as politicamente incorrectas sovas que o nosso bravo Afonso Henriques espetou na mãezinha ao tempo da fundação da nacionalidade não teriam sido mais que a despropósito. Pelo menos nós aqui na Raia, safávamo-nos bem melhor com uma copla bem animada que com um faduncho entristecido daqueles que não é capaz de animar ninguém. A ver vamos o que isto ainda dá!

quarta-feira, abril 18, 2007

29º Desabafo – 18 de Abril de 2007 – “A maior das maravilhas”


O castelo de Marvão é um dos 21 candidatos às 7 maravilhas de Portugal.

E se à primeira vista este é um tema cujo interesse poderia para muitos ser confinado às fronteiras limítrofes da realidade concelhia, o caso muda de figura se constatarmos que de todas as imensas riquezas patrimoniais, culturais e naturais do distrito de Portalegre, o castelo de Marvão é a única a concurso.

Partindo daqui e da pertinência do assunto, gostava de partilhar convosco alguns dados, algumas revelações e um ou outro pensamento sobre a temática.

Na Antiguidade Clássica, longo período da história da humanidade situado entre o século VIII a.c. e o século V d.c., foram erguidas as chamadas sete maravilhas do mundo antigo, um importante conjunto de obras arquitectónicas e artísticas que testemunhavam a magnitude do trabalho e do espírito humano. Entre elas constavam as Pirâmides de Gizé, a mais antiga de todas as obras e a única que resistiu até aos nossos dias; os Jardins Suspensos da Babilónia, em que o mito e a fábula da sua verdadeira existência nunca se dissiparam ao longo dos tempos; a Estátua de Zeus, construída em ouro e marfim e adornada com pedras preciosas em Olímpia; o Templo de Artémis, em Éfeso, actual Turquia, dedicado à deusa grega da caça e dos animais selvagens; o Mausoléu de Halicarnasso, também um sumptuoso monumento fúnebre; o Colosso de Rodes, uma gigantesca estátua de 30 metros de altura e setenta toneladas de bronze dedicada ao deus grego Hélios, e o Farol de Alexandria, uma torre de mármore situada na ilha de Faros, no Egipto, destruída por um terramoto e cujos restos foram recentemente encontrados por mergulhadores depois de confirmados via satélite.

A coisa manteve-se durante séculos até que no ido ano de 1999, o suíço Bernard Weber, de 55 anos, um multimilionário dado a excentricidades que já foi director de museus, cineasta, piloto de aviões e cidadão do mundo que viajou pelos cinco continentes, decidiu meter mãos à obra para a criação de uma votação global destinada a escolher os novos sete monumentos símbolo do planeta para o futuro.

Visitou a Unesco, pegou na lista do Património Mundial, um índice do legado cultural e natural do mundo inteiro, e dos 644 sítios elegeu 17. Depois e com recurso já à Fundação da Novas 7 Maravilhas, colocou a votação na Internet e pediu aos utilizadores do mundo inteiro que sugerissem outros edifícios que tivessem sido construídos pelo homem antes de 2000 e reflectissem a identidade do seu país. Daí resultaram perto de 200 monumentos apurados que foram reduzidos por um painel de famosos arquitectos aos 21 que constam da eleição e onde pontuam, por exemplo, a Acrópole de Atenas, a Alhambra de Granada, o Coliseu de Roma, o Cristo Redentor do Brasil, a Estátua da Liberdade de Nova Iorque, a Grande Muralha da China, as ruínas de Petra na Jordânia, o Taj Mahal da Índia ou a famosa Torre Eiffel de Paris.

Até 7 do 7 de 2007, qualquer cidadão do nosso planeta com acesso à Internet pode aceder ao sítio das 7 maravilhas, facilmente detectável através de um motor de busca e escolher quais são para si as 7 maravilhas à escala mundial que devem ser eleitas, colaborando assim no primeiro grande voto global para a escolha dos novos ex-libris da humanidade. O resultado será registado num cd de ouro que será enviado para o espaço e quem poderá algum dia saber qual o efeito que irá surtir…

E o que é que Portugal e Marvão têm a ver com toda esta história, perguntarão certamente alguns e com razão? Ora bem, se olharmos atentamente para um planisfério, Portugal, e mais concretamente a cidade de Lisboa, situam-se praticamente no centro, o que convém à visão unificadora que está na base da votação. Para escolher as novas jóias, nada melhor que o centro do mundo tal como o vemos nesta perspectiva. O facto de a cerimónia final ter lugar na Catedral da Luz já e uma verdade que me desculparão certamente por não comentar, evitando assim “bocas” que se antevêem menos simpáticos de alguns rivais clubísticos mas se me permitem, a escolha do local parece-me da maior justeza e nobreza e mais do que adequada ao nível dos melhores do mundo.

Mas bem, avancemos, como diz o outro. Temos pois que a 07.07.07, o mundo inteiro estará de olhos postos no Estádio da Luz para assistir à cerimónia que se antevê como a arrebatadora de todos os records de audiência televisiva de sempre. A coisa promete!

Assim que se aperceberam de todo este andamento, algumas empresas lusas ligadas à produção de eventos e ao mundo da publicidade colocaram as cabecitas a trabalhar na busca daquilo que é o objectivo último do seu trabalho: fazer dinheiro e gerar riqueza. E daqui saiu a brilhante ideia do: “espera lá, pá… se estes gajos vêm cá para o nosso país escolher as novas maravilhas do mundo, se está tudo em cima, se a coisa gera milhões, se não há nenhum ilustre representante português na nova elite, porque não escolhermos nós as 7 maravilhas de Portugal?” Igualmente simples e brilhante, não concordam? Esta vistosa manifestação do melhor espírito portuguesito de aproveitamento, justificada pela constatação académica que “copiar por quem faz bem não merece má nota” deu um estardalhaço que nem vos digo nem vos conto.

O método não foi preciso inventar porque, claro está, estava já tudo inventado! Pegaram-se nos 793 monumentos classificados pelo IPPAR (Instituto Português do Património Arquitectónico); juntaram-se 7 peritos que seleccionaram 77 monumentos (a ideia do número 7 fica sempre bem!); e depois, um Conselho de Notáveis convidados pelas duas empresas promotoras, entre os quais contam historiadores, políticos, actores, sociólogos, gestores, jornalistas, cientistas e tudo o que melhor se pode esperar, escolheram os 21 monumentos finalistas que serão submetidos a votação.

Tiveram até o cuidado, para que a coisa não descambasse em balelas, de convidar o inquestionável e mais que intocável Prof. Freitas do Amaral para encabeçar o processo.

Nos 21 finalistas encontramos os inevitáveis como os Jerónimos; a Torre de Belém; os Palácios Nacionais da Pena e de Queluz; o castelo de Óbidos; o mosteiro da Batalha; o Convento de Cristo em Tomar; o Templo de Diana e a Torre dos Clérigos; os prováveis como as ruínas de Conímbriga, Castelo de Guimarães e Mosteiro de Alcobaça, e os outsiders, os que correm por fora como o Palácio Ducal de Vila Viçosa, as fortificações de Monsaraz e o Castelo de Marvão.

Mas, meus amigos, não tenhamos ilusões: trata-se de um negócio, de algo que foi feito para valorizar mas também para gerar dinheiro e nestas coisas como disse um dia e muito bem um notável colaborador meu e da minha autarquia, “trata-se de uma eleição em que Marvão é um partido pequeno, sem militantes, que nem dinheiro tem para bonés”. Não quero eu dizer com isto que Marvão não possa porventura vir a ser votado. Oxalá assim fosse! Mas o que me parece é que a votação é desleal.

É desleal porque nem todas as autarquias às quais tentam extorquir dinheiro para promoção (não esqueçamos que a imagem do concurso tem dono e direitos!) têm a mesma disponibilidade para enterrar milhares de contos nesta história, em bandeirolas e balões de ar quente, em mesas de voto electrónicas e páginas de publicidade nos grandes meios.

É desleal porque a forma de votação realizada sobretudo pelo único meio disponibilizado em meses, a internet, é elitista e favorece largamente as cidades e os meios desenvolvidos que têm outras facilidades no acesso às novas tecnologias.

É desleal porque ao colocarem a decisão nas mãos dos cidadãos favorecem obviamente as áreas mais populosas do litoral e das grande urbes. Não me vão jamais conseguir convencer que o concelho de Marvão com os seus pouco mais que 4 mil habitantes tem hipóteses quando comparado por exemplo com Guimarães que tem mais de 50 mil, já nem vou mais longe!

É desleal porque quem tem apetência para votar e entrar em força nestes concursos é um público-alvo muito específico, com ideias muito próprias que não representa em força o país (só assim se justifica que Salazar seja o maior português de sempre!)

É desleal porque quando se fazem galas e grandes espectáculos, os melhores sítios nas plateias vão sempre para os mesmos; os quadros representados pelos artistas são só de alguns locais; é desleal porque apesar de todos terem direito a cenários pagos por todos, apenas alguns ficam nas luzes da ribalta, frente aos melhores holofotes, nos melhores ângulos de ecrã e o MEU castelo querido lá escondido atrás e bem podia reclamar com a produtora que o resultado era o mesmo.

Mas não me interpretem mal! Não há nada mais triste que desculpas de mau pagador, que justificações para quem não sabe perder, porque não se trata disso! Trata-se apenas de, com a devida justiça, esclarecer e informar, aclarar e justificar o porquê das coisas que NUNCA acontecem sem explicação.

Apesar de tudo isto, apelo a todos os que me ouvem e que têm computador em casa, no trabalho, na escola, na casa do neto ou do vizinho, que vão, votem em Marvão e ajudem a fazer justiça.

E digo-vos mais… que seja qual for o resultado final, que EU: que regressado de uma viagem vislumbro orgulhoso no horizonte o castelo altaneiro de vigia no alto da escarpa íngreme; que passei muitas noites deslumbrado no miradouro da asa delta a contemplar o manto negro adornado com luzinhas a meus pés; que me maravilhei tantas vezes com o nevoeiro cerrado que me fazia sempre acreditar que estava num barco enorme a domar um mar gelado sem fim; que me arrepiei da guarita com o som da águia, o pio da coruja, o ladrar do cão ao longe; EU que como TANTOS que nasceram, se deliciam todos os dias com a vista da muralha e hão-de morrer naquele alto, que por muitas e infinitas maravilhas que haja no nosso país e no mundo até… nenhuma delas é tão linda como o meu Marvão.