Desabafos de Marvão

O convite de um amigo para desabafar na Rádio Portalegre, todas as quartas, às 7.30h, 10.30h, 13.30h, 17.30h, 23.30h, levou-me também a criar um espaço, na blogosfera, onde possam ficar registados os textos da versão radiofónica. Espero que gostem e já agora, se não for pedir muito, que vos dê que pensar. Um abraço...

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Um rapazinho de Marvão

quarta-feira, março 28, 2007

26º Desabafo – 28 de Março de 2007 – “A votação na selecção”


A segunda metade do jogo da selecção A no sábado passado devolveu-me a fé na portugalidade, de tal forma que nem sequer me senti abalado pelo trágico desfecho do concurso dos “Grandes Portugueses” que nos relembrou quão pequenos podemos ser quanto a respeito de memória e auto-estima colectiva, ao entregar postumamente o ceptro do poder ao velhinho de Santa Comba Dão, António de Oliveira Salazar.

Mas deixemo-nos de coisas tristes e relembremos aqueles assombrosos últimos 45 minutos em que os jovens infantes elevaram bem alto o estandarte da selecção das quinas! E não é que os fanfarrões dos belgas estavam mesmo a pedi-las? Depois das sórdidas ameaças do cara de parvo do guarda-redes e do discurso belicista do seleccionador, nada melhor que uma lambada “tuga” de luva branca, daquelas à antiga portuguesa, com 4 tentos de rajada na “pá” para que nunca mais se esqueçam que a miudagem é mesmo “show di bola”. E que luxo, senhores, que privilégio poder ver os catraios (mesmo que há distância de um ecrã) “bombar” o melhor futebol que há muito não víamos. Digam lá se não foi engraçado ver o Figuinho e Príncipe de Florença pasmados na bancada com um sorriso agridoce de quem vê a descendência assegurada mas teme que com jogatanas destas, os esqueçam mais depressa do que pensavam? Aposto que até o Simãozinho e o mágico de Barcelona devem ter gostado da actuação mas não conseguiram evitar no final um “se for sempre assim, onde é que eu encaixo?”. E de todos, saltam 3 por serem por demais evidentes. Na ponta direita, o puro sangue de raça cigana com o seu futebol para lá do já inventado, sempre imprevisível, em danças estonteantes feitas de rodopios e toques de calcanhar, mudanças de velocidade e rotações, dribles alucinantes e as trivelas senhor! as trivelas coroadas com o genial lance do terceiro golo que ficará para sempre gravado a ouro nas páginas mais lindas da história do nosso futebol. No centro, o fabuloso algarvio de palmo e meio, carregando todo o futebol que há no mundo na ponta dos pés. Moutinho não tem os vinte anos que vêm no seu B.I., tem muitos, muitos mais e um cérebro que debita futebol em alta rotação e faz dele o motor incansável da nossa squadra. Corta, rouba, imagina vielas e linhas de passe, centros e desmarcações e prova em cada toque que o futuro é nosso. Como se não bastasse, há ainda a jóia da coroa, o verdadeiro dono do bailinho da Madeira, o que nasceu entre nós para agora ser do mundo, Ronaldo, o grande! E que tremendo gozo é vê-lo partir em voos picados de 40 metros sobre as defesas contrárias, hipnotizando-os com os seus toques febris, magnetizando-os com o seu compasso, arrastando-os de recuas até à boca da área, onde os deixa caídos de cú na relva, para fugir de rajada e desferir de seguida mais um petardo que há-de explodir no fundo da baliza adversária. Meus senhores, estes meninos são de oiro!

Que pena os nossos políticos não serem também assim! Mas infelizmente não são! E aí, todos sabemos que a coisa piora um bocadinho…

Mas o Portas está de volta e tenho de confessar que já tinha saudades. O Portas faz falta porque o Portas faz oposição. Mal decidiu voltar à luz da ribalta ao candidatar-se à liderança do seu partido, aproveitou a conferência de imprensa para dar duas caneladas no Sócrates. O Portas faz falta porque é inteligente, é culto e sabedor, tem ambição, garra e determinação, gosta daquilo à farta e diverte-se, divertindo-nos. Faz falta gente assim! Ao contrário dos filmes da série B, em que geralmente o vampiro se torna no final, ele próprio caçador de vampiros, Portas fez o percurso inverso: enquanto jornalista caçou políticos (o Presidente da República ainda hoje não o pode ver), até que lhe ganhou o gosto e se tornou num deles. Foi durante muitos anos a alma do Independente que na altura não o era só de nome e inaugurou o verdadeiro jornalismo de investigação no nosso país, entrando como um elefante numa loja de porcelana pelos governos adentro, fazendo rolar muitas cabeças desprevenidas que fizeram dele ódio de estimação. É jovem, tem carisma e ainda bem que está de volta.

E depois, meus amigos, vivemos na era da imagem. A imagem é tudo e na política e em Portugal, ainda mais. Os portugueses não votam pelos conteúdos programáticos, por aquilo que é proposto, pelo que a governação pode vir a ser. Os portugueses votam no mais bonito, no mais bem vestido, no que fala melhor mesmo que aquilo que diga sejam uma série de balelas já que no fundo dizem todos basicamente o mesmo. Não interessa o que se diz, mas sim a forma como se diz! E aí está a grande questão.

Tomemos o exemplo do Ribeiro e Castro. É competente, tem ideias, é grande benfiquista, não esteve mal no estrangeiro, mas pelo amor de Deus, o homem tem uma cara de quem acordou às 7 da manhã num domingo com as testemunhas de Jeová a baterem-lhe à porta! Está aborrecido, está cansado, ou zangado, ou sei lá o quê, mas não convence nem o homem das bombas a meter-lhe “sem chumbo 95” quando o outro insiste na “98”, quanto mais…

Vejamos o caso da Odete Santos. Por muito brilhante e talentosa que a senhora seja, alguém acredita que dali poderia alguma vez sair um chefe de Governo?

A imagem conta e muito! É tão decisiva que será certamente uma das razões porque Marques Mendes terá sempre, apesar da prestação enquanto braço direito do Professor nos seus anos de ouro, o caminho para o poder tão barrado, pela inveja interna e pela pressão externa. A contingência de ser baixo, de ser alvo da chacota diária no Contra-Informação, de insistir em ir a escolas quando quase todos os alunos olham para ele de cima para baixo, há-de ser o grande estigma que o impedirá de se afirmar. O eterno candidato António Vitorino do PS sabe bem do que falo, também ele sofre do mesmo!

No próprio PSD, facilmente se conclui que perante a nossa maneira de pensar, um António Borges será sempre mais candidatável que uma Manuela Ferreira Leite apesar das provas já por si dadas em mais do que uma oportunidade.

José Manuel Durão Barroso beneficiou do seu ar simpático e algo bonacheirão, por inspirar confiança.

Sócrates é limpinho, faz desporto, faz questão que o vejam a praticar desporto, tem um ar agradável, de filho que todas as mães querem ter, de figurante em anúncios de companhias de seguros e apesar da sua mania ridícula de andar com as calças à meia canela, serve perfeitamente a minha teoria.

Fazia falta um casting de políticos. Fazia falta e já não há-de faltar muito, que antes de os submeterem a sufrágio e antes de saberem se sabem muito de muita coisa e se sabem como levar o país avante, se têm um ar candidatável para que quando na televisão perguntam às senhoras que passam na rua “porque votam neste ou naquele?”, elas possam responder “porque gosto e já está”.

Voltando ao início da nossa conversa e olhando para os miúdos do futebol em foto colectiva antes do jogo, dou por mim a pensar, com tanto bom aspecto, se lhes desse na cabeça de nas horas vagas, entre os jogos e os treinos, de formar um partido, não sei não! Como isto das votações para aí anda!

Se cá estivesse o bom do Fernando Peça, bem poderia terminar o desabafo por mim com um mais que apropriado: “E esta, hein?”

3 Comments:

Blogger catita said...

Ele até pode ser jovem, ter carisma, ter ambição e garra. Ele até pode vestir-se bem.....E até foi a um dentista que lhe branqueou os dentinhos, e até foi a um solário (ou para a praia, ou para a neve sei lá) e veio de lá com um saudável ar bronzeado...mas é odioso! O Portas é odioso!

2:53 da tarde  
Blogger miranda said...

De volta aos desabafos, apeteceu-me pedir novamente este espaço emprestado, para aqui despejar mais umas ideias. Os políticos são um bom tema que, como se vê pelo comentário anterior, inflama paixões, e os acontecimentos dos últimos dias, à volta do grau académico do Sócrates justificam a escrita. Pessoalmente penso que vivemos o período mais confuso e desinteressante da actividade política de que tenho memória ou conhecimento. Em primeiro lugar acho que praticamente não há políticos que mereçam a nossa consideração ou confiança. Em segundo lugar acredito que a política, hoje em dia, tem uma influência mínima na vida das pessoas. Por último creio que esta situação só tem tendência a agravar-se e nenhum de nós tem ideia das consequências desta degradação. Um exemplo para cada conclusão. Em primeiro lugar acho inconcebível que um político que se propôs a conduzir os destinos do país tenha um percurso académico duvidoso, pontuado por suspeitas sobre favorecimentos na obtenção dos graus de ensino que constam (ou não) no seu currículum. Não tenho qualquer preconceito sobre as habilitações académicas de cada um. Cada um estuda o que pode ou quer e não acho que isso seja determinante na sua vida pessoal ou profissional. O que já acho é cada um deve assumir o que fez ou deixou de fazer e que é muito grave utilizar a fraude para fazer acreditar os outros que se é mais do que as limitações permitem. Sócrates não é engenheiro, não estudou para isso. A sua profissão é a política e se quer ter reconhecimento como tal, tem assumir o seu percurso e o seu destino.
O segundo exemplo, para ilustrar a falta de influência da política, encontro-o fazendo o ponto da situação sobre as reformas da administração e finanças públicas ou sobre a forma como as leis, em geral são entendidas e aplicadas no nosso país. Tudo é vago e limitado ao discurso telegénico; os processos, tanto de criação de leis como de aplicação e fiscalização, prolongam-se no tempo até serem esquecidos; os tribunais têm poder para determinar sobre tudo ou sobre todos, e tanto aconselham o Presidente da República a indultar foragidos como se consideram competentes para decidir sobre o encerramento de maternidades; os concursos públicos para empregos, compra de materiais ou fornecimentos de serviços dependem descaradamente da corrupção e da mentira, ao contrário de se regerem por critérios de eficácia, transparência e democracia; os impérios financeiros dominam a produção de todos os bens e serviços, desde o petróleo à arte contemporânea, e crescem, multiplicam-se, fundem-se ou deslocalizam-se atrás das melhores condições de remuneração do capital, gozando dos favores do mesmo estado que ignora a situação do mercado de trabalho.
Para exemplificar a última tese, acredito que o resultado do passatempo que escolheu Salazar como português exemplar é significativo de que o tempo não é de mudanças favoráveis ao optimismo e que a ligeireza com que os portugueses assumem o seu destino comum não é sinal de distracção, mas antes de maldade ou falta de inteligência. Já não temos ouro e especiarias para financiar as extravagâncias da Corte, já não temos territórios em todos os continentes ou um povo analfabeto para justificar a arrogância e o paternalismo. Nada justifica a situação e o pensamento dos nossos políticos. Temos um buraco cada vez maior debaixo dos nossos pés, onde nasce um caldo de ignorância e pobreza que vai submergindo o país. Neste estado das coisas, como eu o vejo, há que resistir e manter a cabeça de fora para respirar, porque a outra opção é desistir e simplesmente deixar-se afundar.
Aquele abraço do Jaime Miranda

11:33 da manhã  
Blogger maruan said...

Acho que o Portas é, provavelmente, o tranfulha maior que anda na política nacional, título que não é de desmerecer, atenta a concorrência.

O Portas faz oposição, quando pode. No caso das habilitações de Sócrates, não pode. E não pode porque tem o rabito entalado no caso Moderna. Este "affaire" poderia ter acabado politicamente com ele e com mais alguns, se a "mafia" nacional onde o "Paulinho" tb acupa lugar de honra não tivesse despoletado o tema da "Casa Pia", que acaba por surgir num enquadramento político bastante delicado para o Governo de então. Meras coincidências...ou desviar de atenções? ;)

Estou-me nas tintas para o certificado do Sócrates. Foi à RTP e não o "souberam" apertar minimamente. Mas valeria a pena?

Já não me estou nas tintas para o congelamento de salários, para a privatização da função pública, para o encerramento das maternidades, a par com os ordenados astronómicos dos gestores da nossa miséria, que alternam cargos políticos com posições nas administrações das grandes empresas públicas nacionais.

E ao mesmo tempo que aperta o percoço aos pobres, no Norte continuam a estacionar ferraris à porta de casa, com 20 ou 30 pessoas a trabalhar na cave, na economia submersa. Fundo de desemnprego de um lado, trabalho na "candomga" do outro...


Mas somos muito mansos e assim não dá...

12:02 da tarde  

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