Desabafos de Marvão

O convite de um amigo para desabafar na Rádio Portalegre, todas as quartas, às 7.30h, 10.30h, 13.30h, 17.30h, 23.30h, levou-me também a criar um espaço, na blogosfera, onde possam ficar registados os textos da versão radiofónica. Espero que gostem e já agora, se não for pedir muito, que vos dê que pensar. Um abraço...

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Localização: Marvão, Alentejo, Portugal

Um rapazinho de Marvão

quarta-feira, março 14, 2007

24º Desabafo – 14 de Março de 2007 – “Pela lei e pela Grei”


A notícia que Portalegre vai receber uma nova escola de formação da Guarda Nacional Republicana foi por mim recebida com o maior agrado. Penso mesmo que esta novidade que desfez de uma assentada as brumas das dúvidas que há muitos anos assombravam o Convento de São Bernardo, deveriam ser exultadas por todos os habitantes do distrito de Portalegre.

Quero eu dizer com isto que teríamos todos certamente muito a ganhar se porventura tivéssemos a capacidade de falar em muitos aspectos a uma só voz, forte e decidida que expressasse sempre que fosse necessário, o que vai na alma das mais de 120 mil penadas que fazem destes 6.065 km2 a sua grande casa. É que perdemos muitas vezes porque nos dispersamos em guerrilhas internas, em disputas e vaidades e acabamos por dar uma imagem de desunião que em nada nos favorece. Ninguém duvida que nos livros de Geografia é Portalegre cidade que figura como nossa capital, mas a verdade é que ter duas cidades pujantes, orgulhosas e com vida própria como são Elvas e Ponte de Sor, cada uma do seu lado desta manta de retalhos, olhando de soslaio para o protagonismo do ceptro alheio, acaba por nos dispersar.

É próprio da natureza humana querer mais e melhor mas sempre que a prudência levanta a sua voz, acabamos por perceber que às vezes mais vale perder um pouco para ganharmos todos no final, do que tentar açambarcar tudo aquilo que podemos no nosso próprio saco. Sei bem do que falo porque enquanto Vice-Presidente da Câmara de Marvão, lido quase que diariamente com a dificuldade de conseguir que falemos a uma só voz. Estando o município dividido pelo morro que o caracteriza e distingue, é muitas vezes uma tarefa inglória fazer que as vontades das localidades de um lado e do outro do monte falem sob o manto da entidade marvanense e se identifiquem nessa mesma unidade. Há os do Norte e os do Sul; os de Santo António e os da Portagem; os da Beirã e os de São Salvador; interesses e personalidades díspares, sentidos de comunidade diferenciados que raramente confluem nos propósitos. E eu canso-me de gritar que assim é difícil ter horizontes mais distantes porque quanto mais sós, mais fracos, e quanto mais fracos, mais apetecíveis para a cobiça alheia. Viessem agora de novo os de Castelo de Vide, como em tempos já idos, para levarem as mobílias da nossa longa história e seria bem mais difícil apanhar outro Mattos Magalhães que batesse o pé e pusesse a malta toda em linha para defender o que nos legaram com tanto esforço os nossos avós.

Se no concelho é assim, no distrito não muda muito e é tão triste ver a sufocante passividade com que vemos a planície inclinar-se para sul, levando tudo para Évora, sem que haja um rebelde caudilho que nos defenda desta deslocalização encarneirada. Encolhemos os ombros, cruzamos os braços e dizemos que é mesmo assim que tem de ser.

E é por isso que estas enormes vitórias como a da garantia do Primeiro Ministro e do Ministro da Administração Interna de que é em Portalegre que se vão formar os novos homens fortes da nossa Guarda, devem fazer fervilhar de Júbilo todo o distrito.

A mim, preenche-me particularmente porque foi ali que tive a sorte de ter o meu primeiro emprego, acabadinho de sair da faculdade, com 22 anitos mal cumpridos e com muita vontade de começar de vez a ir à grande luta. Numa época difícil e de resistência pessoal em que tantas portas que esperava abertas se me fecharam, foi no CIP, agora AIP, que me encaixei através de concurso público como professor civil de Inglês. Ali passei 3 saudosos anos da minha vida, ali conheci milhares de alunos, centenas de instrutores, militares e oficiais, dezenas de colegas e muito, muito boa gente. Sem querer ser indelicado para os outros sítios por onde passei, nunca fui tão bem tratado, tão respeitado e me senti tão bem como ali. Foram de facto tempos magníficos que constituíram para mim uma grande aprendizagem sobretudo ao nível das relações pessoais, com tanta e tanta gente diferente. Já na altura, nuvens de incerteza quanto ao futuro das instalações precárias, muitas delas pré-fabricadas, potenciadas com a cobiça da Escola de Queluz e da unidade de Aveiro, toldavam o horizonte com cenários que, sabemos agora, nunca haveriam afortunadamente de se concretizar.

Por motivos familiares, vive sempre com um pé no Alentejo e outro na Beira, um em Portalegre, outro em Castelo Branco. Sendo um produto híbrido, uma mescla inusitada de alentejano e beirão, acompanhei muito de perto os diferentes ritmos de crescimento destas duas urbes que nas últimas décadas evoluíram como dois siameses separados dos quais só um parecia ter hipóteses de sobreviver. Durante muitos e longos anos, a apatia, a inoperância e a total falta de sentido de oportunidade dos que conduziram os destinos da nossa capital de distrito, cercearam as nossas esperanças de desenvolvimento enquanto a nossa vizinha das Beiras renascia pujante, oferecendo de mão beijada os terrenos que os outros vendiam a preço de ouro, esfregando as mãos de contente e mudando quase semanalmente, mais 100 metros para sul, a placa que indicava o limite da cidade, estruturando um valioso tecido industrial que ainda hoje faz dela o que é. Durante anos a mais fomos o parente pobre, o patinho feio mas hoje, Graças a Deus e ao trabalho concreto de um homem e de uma equipa, podemos olhar para os nossos pares com outra dignidade.

Quem me conhece sabe bem que nunca fui de bajulações e se há uma virtude que seja de que me possa orgulhar, é a de ser sincero, de dizer sempre aquilo que realmente sinto por dentro. Digo-vos assim pois, sem qualquer tipo de influência partidária ou qualquer espécie de pejo que sou um adepto fervoroso do Eng. Mata Cáceres. Esta história de só elogiarmos que merece depois de morto não me serve e é por isso que me parece da mais elementar justiça que reconheça a minha admiração pelo homem que goste-se ou desgoste-se, mudou para sempre a face da cidade. A história há-de fazer-lhe justiça ao recordá-lo como aquele que, por muito que doa a alguns, produziu obra que há-de perdurar ao longo dos tempos.

Foi com Mata Cáceres que Portalegre passou de cidadezinha envergonhada do interior a capital convicta e orgulhosa do seu passado e da sua história. O absolutamente sublime novo edifício da Câmara; o elegante Centro de Artes e Espectáculos; as inúmeras renovações e melhoramentos no Calvário, no Jardim da Corredoura, no Castelo, no Mercado Municipal e em toda a cidade, a expansão da zona industrial e agora a nova escola que chega são traços que fazem de Portalegre uma urbe com classe e ambição que pisca o olho à modernidade sem nunca renegar o seu passado. Sei que há planos para a zona da Robinson e mil e um projectos a fervilhar, sedentos de se tornar realidade e de deixar as coisas como nunca foram antes.

Conheci-o mais a fundo numa reunião no âmbito da Associação dos 3 Municípios e impressionou-me desde logo a argúcia do seu olhar, pela forma como estuda e escuta os seus interlocutores, como parece raciocinar enquanto fala, a sua calma, noção de estratégia e clareza de discurso. Admiro o seu estilo destemido, do ame-se ou odeie-se; sem meios termos e contemplações; sempre claro, curto e conciso, com dureza quanto baste que tanto pode intimidar como apaziguar.

Sei que pode parecer caricato para alguns, sei que não é normal tecerem-se rasgados elogios a quem ainda mexe, a quem ousa ser empreendedor e que pode e suscitar as mais diversas opiniões, mas a verdade não deve calar e em momentos tão importantes para a cidade e para o distrito em que vitórias como esta deveriam ser unanimemente reconhecidas e divulgadas, a bem de todos.

Diziam-me há dias, com muita piada, que o mal do nosso país foi o Salazar não ter deixado cá um filho que tivesse dado continuidade ao seu trabalho. Faço votos que a força e a dinâmica que despontam agora em Portalegre nunca fraquejem e se espalhem a todo o distrito que tanto precisa e que o trabalho bem feito nunca canse e sirva de inspiração para todos nós.

2 Comments:

Blogger Bonito said...

O “morro” que divide Marvão(como tu dizes) é, talvez, o maior problema deste Concelho. É que essa forte divisão na paisagem resulta numa drástica clivagem nas mentalidades.

Qualquer pequeno Concelho como o nosso aglomera, naturalmente, os seus pontos fortes na respectiva Sede. Sendo esta o principal motor de desenvolvimento. Ora, atendendo às suas peculiares características físicas, a vila de Marvão não pôde crescer nem, consequentemente, comportar estruturas ao nível do desenvolvimento económico, social, cultural, desportivo, etc, (enfim, massa crítica) como qualquer outra Sede de Concelho. Desta forma, sendo a mais bonita, imponente e conhecida Sede de Concelho do Distrito é, também, a mais desertificada e vazia de infra-estruturas.

Por outro lado, não existindo uma sede que, de uma forma unânime, pudesse aglomerar tudo isso surgiram as “guerrilhas” de freguesias, chamando cada uma a “brasa à sua sardinha” – ex) duas escolas, duas piscinas, etc. Consequências: 1 - todas perderam com essa guerra e, sobretudo, perdeu o concelho; 2 – criou-se uma forte clivagem nas mentalidades, principalmente entre Norte e Sul; 3 – Concelho menos desenvolvido do Distrito.

As novas gerações têm atenuado esta realidade, apenas atenuado. É os de Marvão a reclamarem com a gastronomia na Portagem; é os de Santo António das Areias dizerem que tudo é feito na Portagem e, quando surge o Carnaval em SAA, reclamarem por o anunciarem como “Marvão Folião”; é os da Beirã também a quererem “O Carnaval”; é os da Portagem a olharem desconfiados perante a possibilidade de surgirem infra-estruturas para a instalação de unidades empresariais em SAA; é os do Porto da Espada a dizerem que “de Marvão não se avista o Porto da Espada”. Enfim, só alguns exemplos.

Todos nós, de norte a sul, de este a oeste, devemos perceber que é bom para todos que sejam criadas infra-estruturas, seja em que local for; é bom para todos a permanência e desenvolvimento do aglomerado “industrial” de SAA; é bom para todos um constante potenciar das características naturais da Portagem para o turismo; é bom para todos a subsistência e incremento de actividades agrícolas/florestais no Porto da Espada ou na Beirã (Herdade Pereiro); é bom para todos promover a singular sede de concelho que temos: MARVÃO; é bom para todos…etc, etc,etc.

No início desta semana tive formação profissional em Lisboa. Estavam presentes mais 20 colegas; um de Setúbal, um de Rio Maior, uma de Beja, um da Cova da Piedade, etc, etc. Na apresentação da praxe referi que era natural de uma das 7 maravilhas de Portugal: MARVÃO. Todos conheciam e admiravam Marvão e alguns referiram já ter votado nesta "maravilha". No distrito só há uma marca mais forte que a marca “Marvão” é a “Delta”.

Há que potenciar a marca “Marvão” e tirar partido dela (É boa ideia anunciar o “Marvão Folião” em SAA ou o “ Marvão Rock Fashion” na Portagem. É necessário percebermos que temos um Concelho diferente e fazer dessa diferença uma vantagem.


Enfim...vais conseguindo um dos teus objectivos com "os desabafos": incitar as pessoas a pensar...

Grande Abraço
Bonito Dias

12:29 da manhã  
Blogger Pedro Sobreiro said...

Que bom que seria se os marvanenses percebessem de vez que este tópico é estratégico para todos nós.

Obrigado pela força e clareza do discurso e pelo apoio.

Aquele abraço.

9:21 da manhã  

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