Desabafos de Marvão

O convite de um amigo para desabafar na Rádio Portalegre, todas as quartas, às 7.30h, 10.30h, 13.30h, 17.30h, 23.30h, levou-me também a criar um espaço, na blogosfera, onde possam ficar registados os textos da versão radiofónica. Espero que gostem e já agora, se não for pedir muito, que vos dê que pensar. Um abraço...

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Localização: Marvão, Alentejo, Portugal

Um rapazinho de Marvão

quarta-feira, janeiro 10, 2007

15º Desabafo – 10 de Janeiro de 2006 – “O triunfo dos porcos”


De olhos mortiços e incrédulos para as câmaras e para o mundo, imbuídos de uma estranha imunidade que os paralisa por dentro perante tamanho frenesim mediático, os trabalhadores da Yazaki Saltano, parecem já não ter força para trilhar o caminho que lhes surgiu agora inesperadamente por andar. Têm na boca o gosto amargo desta história que parece sempre acontecer aos outros mas que em má hora lhes tocou agora a eles. A empresa japonesa com nome de herói de banda desenhada de terceira linha, já sugou o que tinha a sugar, já explorou o que tinha a explorar, já ganhou tudo aquilo que havia para ganhar. Com a desculpa esfarrapada da descontinuidade da produção de cablagens para o Toyota Corolla, com a airosa graciosidade de um Zé dos Telhados, canta como ninguém a canção do bandido que deixa Ovar e o Governo a sonhar com um prolongamento que nunca há-de existir, pois o jogo está mais que perdido nos 90 minutos regulamentares. Depois de mamarem mais de 1 milhão e meio de euros em programas de investimento público e de terem recebido os terrenos para a localização das infra-estruturas de mão beijada, despedem-se agora com a traição de Judas, expressa em indemnizações acima da lei, aceites por não haver mais por onde fugir.

De baterias apontadas para a Turquia ou Eslováquia, onde o preço do trabalho das mãos dos homens se paga com bem menos valor que por cá, prepara-se agora para embalar os tansos que se seguem, as próximas vítimas do embuste que engenhosamente engendrou.

Em Portugal, por terra, ficam os homens encostados às grades e portões, amparados pelas vedações, fumando filas ininterruptas de cigarros sofregamente cilindrados até ao fim. Por cá, ficam as mulheres de bata, de mãos nos bolsos, reunidas em pequenos círculos informais à procura do aconchego umas das outras, de volta das fogueiras que lhes hão-de aquecer os corpos mas não as almas, noite dentro, até ao vazio da manhã seguinte. De ar perdido, à espera da razão que sabem que não há-de chegar. São mais de 500 ao todo. 500 são 14 autocarros cheínhos de gente que a 24 de Janeiro acordará de manhã sem ter para onde ir e que fazer, sem ter onde ganhar aquilo que necessita para viver. Serão 500 vezes 4, vezes os filhos e os familiares que irão inevitavelmente ser arrastados pelas ondas de choque deste terrível epicentro que os há-de marcar para sempre.
Infelizmente, nós cá em baixo, pelo Alentejo, já ouvimos esta história que de tanta vez nos ter invadido a casa pelos telejornais a dentro, parece ser sempre a mesma, parece ser a que já sabemos de cor e salteado.

O primo Basílio Horta que se cansou de ser eterno candidato a Presidente da República e agora se contentou com o belo tacho de Presidente para a Agência Portuguesa para o Desenvolvimento, diz que não, que não havia mais nada a fazer e arremata o ponto constatando há uma grande disparidade de preços entre a mão-de-obra nacional e a oferta do leste. Bem haja pela acutilância, mais sinceramente não era preciso dizer tanto, isso já nós sabíamos há muito. O nosso Manuel Pinho, confuso dono da pasta da economia, também sabe nestas ocasiões colocar o semblante de preocupação que convêm nestas alturas de pêsames. Diz que vai tentar, que vai negociar, que tudo irá fazer para evitar o pior quando o pior há muito já bate à porta.

Meus amigos: Portugal no seu melhor! Ouçam bem o que vos digo: ou abrimos depressa a pestana, ou o papão que dorme aqui ao lado, de 504 mil quilómetros quadrados e mais de 44 milhões de habitantes, não só nos vai comer, como lhe vamos suplicar de joelhos que nos devore de uma assentada só, para que sintamos menos a dor da degustação.

A solução para este quebra-cabeças indecifrável, só pode estar no sorriso do Sr. Hermínio Mira, que eu em boa hora conheci nas páginas do jornal, bem aventurado proprietário da criação de porcos alentejanos de raça certificada e da fábrica Pata Negra, em Campo Maior. Este simpático senhor que certamente já passou a barreira dos 60 mas se diz sentir com menos de vinte e nos sorri na fotografia, em plena produção com um dos seus exemplares ao colo, é dono de uma empresa de capital 100% português que transforma por ano 6 mil porcos que dão origem a 600 toneladas de produto, com destaque para os afamados presuntos que são exportados até para a china, onde são considerados uma iguaria ao nível do caviar. Nesta história de sucesso, 60% das vendas vão direitinhas para Espanha, mas há também Inglaterra, Alemanha e estuda-se já a possibilidade da França, do Brasil e dos próprios Estados Unidos. Para 2007, quer aumentar 50% a produção, prevendo que a sua capacidade possa mesmo vir a triplicar! Não vislumbrando qualquer apoio estatal ou mesmo do sector bancário português, perspectiva já na sua ânsia de expansão, aliar-se a interesse estrangeiros, por ser a única forma de levar a sua avante que o que tem de ser tem muita força.
Empreendedor e decidido, confiante até à medula, o amanhã deste homem está bem longe do descrédito dos trabalhadores da Miazaki.

O segredo é simples e claro de se ver. Bem dizia o outro que chapéus há muitos. Cabos também, digo eu! Até na Papua Nova Guiné ou em plena Gronelândia se podem fabricar uns iguaizinhos aos dos nipónicos de Ovar. Mas porcos, meus amigos, daqueles bem escurinhos e bem alentejanos, que só comem a bolota que cai da árvore e lhe dá o característico sabor, aqueles que nem querem ouvir falar de rações ou farinhas, aqueles que têm livro genealógico e são certificados por entidades autónomas, aqueles que demoram ano e meio a atingir o apogeu, só neste cantinho da península ibérica porque são muito nossos e estão bem aqui ao lado.

Nestas duas faces da mesma realidade, uma certeza deve nortear o futuro que todos queremos: só apostando no que nos distingue de tudo o resto, nos podemos afirmar com segurança de quem tem terreno firme para prosseguir em frente.