Desabafos de Marvão

O convite de um amigo para desabafar na Rádio Portalegre, todas as quartas, às 7.30h, 10.30h, 13.30h, 17.30h, 23.30h, levou-me também a criar um espaço, na blogosfera, onde possam ficar registados os textos da versão radiofónica. Espero que gostem e já agora, se não for pedir muito, que vos dê que pensar. Um abraço...

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Um rapazinho de Marvão

terça-feira, dezembro 19, 2006

12º Desabafo – 20 de Dezembro de 2006 – “Saber agradecer”

Foto: Pôr-do-sol em Marvão, em 13 de Dezembro, captado por mim

Perdoem-me os ouvintes mas discordo completamente de quem diz que o dinheiro não traz felicidade. Discordo em absoluto porque para mim, o dinheiro pode mesmo dar muita alegria. Para além dos inúmeros bens materiais, dos últimos gritos da tecnologia ao mais banal dos bens comuns, o dinheiro permite-nos viajar, ter prazeres mirabolantes, concretizar os sonhos de quem amamos e até pode dar saúde, o mais supremo e precioso de todos os bens. Duvidam? Não o farão certamente aqueles que por falta de posses se vêm arrastados para as listas de espera e intermináveis corredores de hospitais, aqueles que por falta do vil metal, podem ouvir falar mas nunca entrar no tal programa ou clínica privada que lhes resolveria em horas o que pode levar infindáveis anos a concretizar. Com o dinheiro e os avanços da ciência e medicina, até o feio pode virar bonito com uns bonitos seios a estrear, o jeitinho no lábio, o retoque no nariz, a aspiração das gorduras abdominais ou a moldagem de uma bundinha bem ao melhor estilo Copacabana. Rio-me por dentro quando ouço a lapidar constatação “se me saísse o totoloto, nem sabia o que fazer com tanto dinheiro”. Pois comigo como consultor, era um abrir e fechar de olhos! Tanta coisa boa à nossa espera…

Não tendo pais endireinhados, nem tendo nascido numa família abastada, aprendi a dar valor ao dinheiro e sei bem o que significa não o ter. Quando construí a minha casa, com exclusividade de recurso a capitais externos, digo entidades bancárias, esforcei-me para fazer tudo pelo melhor. Tive a sorte de ter um construtor meu amigo que bastante me ajudou e me perguntava de vez em quando, “queres o material normal ou um bocadinho melhor? A gente acerta contas no fim!” Eu pensava, “casa há só uma, mais vale que seja tudo em condições para que não tenha que andar com remendos daqui a amanhã” e alinhava. Na noite da reunião final de contas, já feliz residente da nova construção, soube o total do acerto, mais que justificado em inúmeras e longas tirinhas de papel. Tanto daqui, mais um pouco dali, uns pozinhos dacolá e dois mil e muitos contos em moeda antiga que me deixaram praticamente da penúria. O pior de tudo é que havia um resto de parte para a mobília da sala de jantar com que a minha mulher sonhava há muito e até esse foi na enxurrada. Ela bem perguntava “então? Dá prá sala?” “Para a sala? Nem para uma cadeira, quanto mais…” Não fui capaz de deixar de me sentir culpado e essa ficou sempre atravessada na garganta.

Para sempre, isto é, até ao passado fim-de-semana, quando se rescreveu a história da chegada da abençoada mobília. Tem mesa maciça e comprida para que caibam todos os comensais, bem à maneira como sempre quis. No sábado, acabada de descarregar, sentei-me sozinho nela e a olhar para ela, qual anfitrião imaginário de um jantar por acontecer e dei por mim a agradecer, em silêncio. A agradecer por ter acontecido, a agradecer por ser verdade. Na verdade, dei por mim a falar sozinho, acho que dei por mim a rezar.

Numa entrevista do excelente suplemento 6ª, do Diário de Notícias, reencontro em entrevista um dos meus heróis de adolescência, um daqueles que eu segui e li sofregamente, dos que sempre acompanhei na sua meteórica carreira literária e jornalística, desde os tempos áureos do Independente, através da revista K e livros fora: o Miguel Esteves Cardoso. Mais valia que não o tivesse feito. Bastante amolgado por uma existência errática intoxicada por excessos, bastante mais pesado e perdido, parece agora a anos-luz do jovem prodígio que aprendi a admirar. De pensamento confuso e algo atabalhoado, confessa-se e redime-se em conversa mas para quem o conhece como eu, sem nunca o ter conhecido pessoalmente, está mais próximo do esquecimento do que dos tempos áureos da ribalta. Não há ninguém que resista a 80 cigarrilhas e 3 garrafas de vodka por dia. São escolhas e temos que respeitar, mas custou-me muito vê-lo assim. Como o que é brilhante nunca se deixa apagar, a páginas tantas, no meio da conversa, deixa escapar uma pérola: “a humildade absoluta é a gratidão”.

Fiquei a mastigar esta e a pensar no que me tinha acontecido com a história da mobília que a muitos se calhar nada diz mas que me parece um bom intróito para uma reflexão um pouco mais profunda: ser-se grato pelo que se tem.

O César era o nosso Pélé. Não havia em todo o concelho rapaz com tamanha força de remate. Nos torneios infantis inter-freguesias era estrela fulgurante. Rápido, ágil e veloz, fazia de nós bonecos de mesa de matraquilhos enquanto encantava os pelados com o perfume do seu futebol. “Vai longe”, comentavam os velhos. “Que pena não ter nascido na Beirã” suspirávamos nós os pequenos, sabendo que a naturalidade na nossa freguesia nos garantia o reforço ideal para toda a vida. Ia longe… mas não foi. Numa noite maldita, haveria de o gelo ou a estrada ou sabe-se lá o quê, de o empurrar para a cadeira motorizada onde ainda hoje vive. Contagia com a sua simpatia e boa disposição quando avista um velho e a conversa cai sempre para o nosso glorioso, não é César?

No sábado reencontrei o Henrique. Embora nunca tenha pertencido à minha lista de amigos íntimos, sempre simpatizei com ele. Sendo uns anos mais velho e autor de proezas míticas e de diabruras diversas no ciclo de Castelo de Vide, sempre despertou em mim uma empatia natural. De curso terminado e carreira promissora, haveria de num fatídico acidente, numa manhã de casamento de amigos, ser atirado para uma cadeira de rodas, num calvário interminável, ao qual resiste com enorme tenacidade. Correndo dentro de si para ir vivendo.

O Zé Manel era bem mais velho mas também forte elemento da família benfiquista, porque é inevitável: quem gosta de futebol e ama o Benfica, tem sempre tema de conversa. O Zé Manel fez carreira na tropa. Era do tempo em que a peluda era obrigatória, havia esperança nessa carreira e ele nela acreditou durante muitos anos até que uma remodelação o enviou directamente para o olho da rua. Cá fora, sem ser capaz de ficar parado, adaptou-se ao mercado e encaixou-se numa empresa de sucesso do ramo das desinfecções, onde se esforçava para ser feliz. Gostava muito do seu porto e do seu Marlboro. Nesse aspecto, era um apreciador refinado. As fortes dores de cabeça foram mau prenúncio e nem as operações a esse pretenso aneurisma o safaram da sorte pior que lhe saíu ao caminho. A doença levou-o em meses. Lembro a última conversa na rua e da esperança das suas palavras. Ainda guardo o último e-mail que me enviou, sempre num estilo bem disposto. Dizia que mos enviava para desanuviar da pressão da câmara.

O João Paulo também foi militar. Não tinha grande patente mas o amor por aquela vida saia-lhe por todos os poros. Em noites de rampolia nas festas da aldeia, não havia serão em que não nos metesse todos a marchar, para galhofa geral. Sempre bem disposto, era o número um do comboio da Beira-Baixa, quando este apinhadinho, nas noites de domingo, nos apanhava em Abrantes e descia até Lisboa cheio de magalas, trabalhadores e estudantes como eu. Foi lá que o vi brilhar, a abrir as minis nos vidros com destreza que a todos deixava boquiabertos. Sempre de anedota pronta e piada fresca, era a alma daquele comboio. Quem não conhecia o Cabo Pereira não era deste mundo! Não se tendo adaptado ao mundo cá de fora, tinha agora uma hortita bem cuidada onde se entretinha e da qual ofertava os seus amigos com belas couve s e melhores alfaces. Uma meningite súbita atirou-o há dias para uma cama do hospital onde ainda hoje luta, frágil. O mau diagnóstico feito no nosso hospital distrital que o encaminhou para a psiquiatria, certamente nada ajudou mas também de nada ajuda agora olhar para trás.

Também o meu querido Bernardo, o meu velharasco, luta hoje com todas as suas forças e com uma fé que a todos anima e comove para levar em frente a sua saúde, o seu negócio e sobretudo a sua família e o seu filhote. Hás-de conseguir se Deus quiser.

E daí vem a história de gratidão, quando metemos bem fundo a mão na consciência e pensamos em tantas noites, tantas situações, tantos momentos em que em vez de eles, podíamos ser nós os protagonistas. Porque foram eles e não outros, haveremos de saber um dia, porque eu, como bom português, acredito no destino e num plano qualquer global que nos rege. Muitas das vezes, há que deixar andar, não nos restando mais que ir vivendo cada dia de cada vez, agradecidos e reconhecidos pela oportunidade única de cá estarmos.

1 Comments:

Blogger Moony said...

gostei muito do post, mas o intuito era mesmo desejar boas festas para voces e boas entradas

11:15 da tarde  

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