Desabafos de Marvão

O convite de um amigo para desabafar na Rádio Portalegre, todas as quartas, às 7.30h, 10.30h, 13.30h, 17.30h, 23.30h, levou-me também a criar um espaço, na blogosfera, onde possam ficar registados os textos da versão radiofónica. Espero que gostem e já agora, se não for pedir muito, que vos dê que pensar. Um abraço...

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Um rapazinho de Marvão

quarta-feira, novembro 22, 2006

8º Desabafo – 22.11.2006 – Época de exames


Quem me dá o grato prazer de me ouvir perguntava-me há dias, “já falaste no País… quando é que voltas a Portalegre?”. A dúvida é pertinente e reveladora. Quem ouve faz parte do processo comunicacional. Se ouve é porque gosta de ouvir e é nessa medida que se acha no direito, e bem!, de influenciar sobre aquilo de que falo. Mas se me permitem, parece-me não ser essa a mais importante das questões. O mais importante não é saber sobre onde se fala mas sim sobre o que se fala. Até porque concordarão certamente comigo quando digo que a realidade da cidade e do distrito é muitas vezes parca em acontecimentos que valham realmente a pena pensar sobre. Assim como há inúmeros acontecimentos nacionais e internacionais cujas ondas de choque nos chegam a atingir, de uma maneira ou de outra, por tabela.

Sendo assim, o mais importante nestes desabafos, nestas crónicas de cidadãos que se presumem informados (como diz o jingle publicitário) é no meu modesto entender, o poder dar a visão, a visão sempre pessoal e de um modo muito particular, de tudo aquilo que acaba por marcar os nossos dias e a nossa vivência. No meu caso, será a visão de um beiranense, que é simultaneamente marvanense, lagóia, alentejano, português, europeu, e em última instância terráqueo. E porque a crónica é a mais íntima de todas as peças jornalísticas, aquela em que todos os outros estilos cabem, aquela onde nos podemos literalmente esticar, é aqui que partilho convosco, caros ouvintes, aquilo que me engasga ao pequeno-almoço, que fala comigo durante o dia e muitas vezes, se instala debaixo da almofada para não me deixar adormecer. Na ausência de oportunidade de definir logo de início o meu propósito nestes pouco mais de cinco minutos semanais em que fazem o favor de me aturar, manifesto neste editorial informal o meu verdadeiro objectivo: estando longe de vos pedir que concordem com o que digo, o que eu gostava mesmo é que os desabafos da quarta-feira servissem para acender o rastilho do pensamento em cada um de vós, seja ele qual for.

E como tem estado mesmo junto à boca do forno, eis assim que regresso ao tema da educação, nesta vez na perspectiva do professor.

Há muito que defendo que a sociedade que maltrata os seus professores, compromete seriamente o seu futuro, ao comprometer a vida das gerações vindouras. A classe docente representa um dos vectores da sociedade cujo desempenho depende em muito das condições em que exerce a sua actividade. Para falar depressa e bem, convêm que estejam contentinhos e preocupados em fazer apenas aquilo que devem: ensinar, e já agora, o melhor que podem. Convém que estejam motivados, bem pagos, que se sintam em casa, que a sua relação familiar seja estável, que não se estejam a divorciar, que o clube de que são adeptos ganhe em todas as provas onde entra e que não haja chicotadas psicológicas no balneário. Por favor!

Por mim falo. Eu sei que assim é! Sempre fui o gajo das letras. Matemática? Só a cacete! Recordo com aflição o fim das tardes de Verão em que a tortura maternal se esforçava, para meu bem, em me explicar as inúmeras propriedades da multiplicação ou as vantagens de fazer um conta de dividir à moda antiga. Provas dos nove? Raízes quadradas? Unidades de volume? De massa? De capacidade? Sistema métrico? Tabuadas? Horror! Um calvário, um caos tremendo, um suplício. Por favor não, e ela bem tentava, com laranjas e maçãs, levar o petiz à certa, mas ele era mais livros, textos e composições. Paciência! Cada um nasce pró que nasce. Mas eu juro por Deus que me esforçava. Pois essa minha relação, chamemos-lhe de esforço, com a matemática, havia de sucumbir definitivamente no segundo ano do ciclo com uma professora a quem a vida não lhe corria bem e à qual baptizámos, esteja ela onde estiver, de Farrusca, acho que pelo tipo de penteado exótico que ostentava a senhora. Como a vida estava má para ela e não estava para se chatear connosco, a dita cuja lembrou-se de nos ensinar as fracções mandando fazer cópias. Cópias? Sim, cópias das páginas inteiras dos livros, nas aulas e nas férias, deitando por terra a minha aspiração de alguma vez entender tal bizarra engenharia. “Os desenhos também se copiam?” perguntava eu, desajeitado. Risos. “Sim, copiar tudo!”. Percebem a relação? Professora descontente, aluno incompetente. As fracções? Haveriam de entrar já muito mais tarde, pela mão de um colega de finanças e a razão do imposto sucessório, à custa de muito gozo e de ouvir vezes sem fim a ladaínha: “onde é que já se viu, sair doutor da faculdade sem saber as fracções! Ah!”. E não! Não valia a pena explicar que o curso era de letras. É comer e calar!

Mas estes são tempos difíceis para os professores que se querem contentes… Quem esteja atento aos meios de comunicação reparará certamente que os casos são mais que muitos e todos eles dão panos para mangas.

Relatos da Universidade de Évora dão-nos conhecimento de uma história de honra à moda antiga. O romance começou em 2004, quando um docente da instituição reprovou um aluno do curso de Engenharia Geológica. Não achando piada nenhuma à avaliação final, o aluno só não fez logo a folha ao homem porque os colegas se interpuseram. Mas a coisa não ficou por ali. Chamadas telefónicas? Às dezenas numa noite, sempre de madrugada, como convém! Pressão a toda a linha, como nos filmes de espionagem, durante dois anos e meio para terminar há cerca de um mês ao melhor estilo marcial asiático com agressão pelas costas, derrube ao chão, arraial de murros e pontapés, num ensaio que deixou o pobre do docente em casa de baixa médica, em total parafuso mental, sem conseguir dormir uma noite tranquila. Pudera! Apesar da quarta-queixa crime, o aluno continua em funções, a terminar a licenciatura. Bem ao melhor estilo lusitano! O resto da estudantada vive clima de revolta e insegurança. O reitor justifica-se que não há nada a fazer. Apesar da legislação que rege as universidades prever a autonomia disciplinar destas intituições, nada pode ser feito enquanto não for criado um regime definido por lei, sob proposta do Conselho de Reitores. Pois esse Estatuto Disciplinar do Ensino Superior ainda está por legislar, apesar da proposta já ter sido apresentada e ter atravessado 3 governos. A única lei de que se podem valer é de 1932, um bocadinho desadequada, portanto. O comunicado interno refere que a lei não permite que a Universidade se constitua como queixosa, nem que actue disciplinarmente. “Nem nos exageros das praxes, se pode sancionar os malfeitores”, referiu o responsável máximo do estabelecimento. De mãozinhas e pézinhos atados. Não sou ninguém para dar conselhos, mas “ó setôr, vá lá dando uns dezitos porque senão a malta ainda se zanga e aí a coisa fica feia e sobra para si”.

No Liceu Maria Amália, em Lisboa, também foi durinho. O aluno entrou pela aula de história adentro de capacete na cabeça, agarrou a setôra por trás e apontou-lhe a pistola de alarme à cabeça, gritando “isto é um assalto!”. A brincadeira só foi desmascarada quando se ouviram os risos dos colegas vindos do corredor. A pobrezinha, de 54 anos, ainda agora deve de estar a tremer. E apesar da suspensão do aluno, geralmente pacato e normal que “só queria brincar com a professora”e da queixa apresentada na PSP, a verdade é que de costas para a entrada, há-de ser difícil voltar a leccionar.

Como diria a minha tia “fazia cá falta um Salazar, para ver se o respeito era outro”.

Que o respeito devia de ser outro, até concordo. Que a classe docente está debilitada. Não tenho dúvidas. Mas também me parece que esta perda de força também deve ser imputada aos próprios professores. Quem se quer respeitado, deve-se dar ao respeito.

Sigo com atenção a novela da proposta governamental da alteração ao Estatuto da Carreira Docente. Os professores na rua, em manifs, gritando slogans de protesto, promovendo abaixo-assinados recordistas e fazendo declarações de guerra à Ministra. A bruxa, a má, a velhaca. A culpada de todo o infortúnio. Convencidos que são donos de toda a razão, esquecem-se contudo que para a sociedade em geral que pouco pesca do assunto, aquilo que o governo defende nesta matéria faz, em muitos casos, todo o sentido. Senão vejamos,

- Ter de passar a fazer uma prova nacional de avaliação de conhecimentos e competências para aceder à carreira de docente? Porquê não? Se já se fazem em tantos outro serviços.
- Ter um período probatório de um ano? Parece-me perfeitamente razoável.
- Como me parece bem que em caso de inexistência de serviço lectivo no quadro de zona, possam vir a ser afectos a agrupamentos situados em zonas limítrofes.
- Como me parece completamente insensato serem contra o facto de se estar a criar a distinção entre professores de primeira e de segunda, quando todos nós sabemos que há de facto professores que se aplicam, que trabalham e se esforçam mais do que outros. A evolução segundo o critério unicamente temporal sempre valorizou a mediocridade. Não deve haver medo de ser julgado pelo nosso desempenho quando estamos conscientes do esforço que fazemos.
- Avaliação de desempenho anual, em vez de 4 em 4 anos?
- Permitir que os pais dos alunos, enquanto interessados e intervenientes no processo educativo possam dar a sua palavra em termos de análise de desempenho?
- Ter de solicitar autorização com cinco dias de antecedência para faltar, e entregar o plano de aula que permitirá a substituição e condução da aula por colega a designar?
- Ter dispensa para formação só na componente não lectiva do horário do docente, ou durante os períodos de interrupção da actividade lectiva?

Aos olhos dos comuns mortais, tudo medidas coerentes, duras mas justas e com uma notável coragem política. Porque em tempos difíceis, é preciso ajustar, racionalizar, redefinir. Em tempos de mudança é preciso saber-se adaptar. Seria bom se os docentes do nosso país soubessem responder a este desafio dos novos tempos com um resposta de qualidade e de inteligência que sei que está perfeitamente ao seu alcance. Com uma resposta de classe, de nível.

As gerações futuras agradeceriam.

3 Comments:

Blogger janita said...

Ola Pedro aproveito ets forma para convidar-te a participares na nossa mariscada no proximo dia 1 de dezembro como nosso convidado especial estamos á tua espera, se não compareceres compreendemos mas fica combinado.Visita nosso blog.

Abraço

João Almeida

12:11 da manhã  
Blogger Paula said...

Sabes bem que eu até concordo com algumas das alterações. Mas temos que ser mais humanos, senão repara… quem pode pedir para faltar com cinco dias de antecedência para assistir à cerimónia fúnebre de um familiar ou amigo? Ou quem pode antever a sua doença ou a dos filhotes? Quem pode, ainda, concordar com os professores e os professores titulares quando essa distinção “raramente” irá estar relacionada com bons ou maus desempenhos, mas sim com conhecimentos e amizades!?
Quem poderá ser bom docente quando tem pela frente umas longas viagens, um dia sem fim na escola, em que os alunos já queriam mesmo era correr e saltar (e muitas vezes acabam por fazê-lo dentro mesmo das salas de aulas) e ao chegar a casa tem uma família que quer, e tem direito, a apoio, mimos e outras exigências mais. Então, pergunto eu, quando preparo as aulas? Sim. Porque os bons docentes assim o deveriam fazer, mas quando?
Afinal, se calhar, mesmo aqueles que querem ser bons docentes (porque ainda os há), começam a ficar limitados pelas circunstâncias actuais.
Esta reforma era necessária mas nunca deveria ser feita duma forma tão brusca. Só veio causar revolta, indignação e mau estar nas escolas, quer entre docentes, alunos, auxiliares de acção educativa e até mesmo pais, que exigem aquilo de que eles se dissociaram: a EDUCAÇÃO.
E já agora…existem pessoas que reflectem… escrevem bem… e têm capacidade de análise e abstracção… e tu és uma delas mas… vamos sair do abstracto e ser objectivos. Imagina que, por uma reforma nas Finanças, fechavam a Repartição de Marvão e os seus funcionários iam, por exemplo, para a Repartição de Portel… ainda consideras a medida de transferência compulsiva (de empregados efectivos) para um distrito limítrofe acertada?...
Com amizade,
Paula

11:52 da tarde  
Blogger Pedro Sobreiro said...

Minha querida cunhadinha. Isto está a ficar difícil, mas eu nunca fujo a uma boa luta, e não querendo ser chato, cá vai! Quando se criam as leis, e essa será certamente uma das grandes dificuldades de quem legisla, tem se pensar sempre em termos globais e não nas particularidades óbvias que vão surgindo ao longo da sua aplicação. Quando escrevi sobre a matéria, escrevi sobre aquilo que foi legislado, sobre aquilo que estava definido no papel e com o qual eu concordo quase em absoluto. Ora aquilo que tu me falas não é na lei em si de forma objectiva mas sim em particularidades, desvios ou sub-regimes que se podem vir a alimentar do sistema-mãe. Senão vejamos:
- quando falas na impossibilidade de avisar previamente nos 5 dias previstos antes do óbito de um familiar ou da doença de um filho ou do próprio, estás-me a falar em algo óbvio. Ninguém, felizmente ou infelizmente consegue antever a chegada da morte ou da doença. Nesses casos concretos terá que haver excepções à regra. O que me parece que o legislador quis fazer foi evitar que aqueles teus colegas que se baldam sempre que lhes apetece, a toda e qualquer hora, sem passar charuto a ninguém, continuem a faze-lo impunemente. Posso-te citar a título exemplificativo, o caso de uma professora de uma escola do concelho que por não gostar de uma turma específica, falta quando lhe apetece a essa aula apesar de estar fisicamente na localidade e depois de ter comparecido a todas as outras aulas. É contra essa discricionariedade que a lei vai, é com esse tipo de comportamentos que ela quer acabar. E bem!
- Quando dizes que a distinção entre professores e professores titulares será por preferências pessoais e por cunhas, desculpa mas não foi esse o meu entendimento do documento. Antes pelo contrário, os parâmetros de avaliação estão perfeitamente definidos e são absolutamente objectivos. Estás-me a falar num desvio e não na lei!
- Quanto à preparação das aulas, eu também já fui professor e as aulas preparei-as nos primeiros anos e depois fui fazendo apenas ajustes face ao calendário e ao programa do ano lectivo. Não se vai inventar a pólvora de um ano para o outro. Pode haver novos manuais, novos jogos, novas actividades, novos métodos mas não é um trabalho dantesco. Enquanto funcionário das finanças, nunca estudei ou li códigos (e são muitos!) no serviço. Fazia-o em casa, fora do expediente, porque queria e não considerava isso trabalho.
- Quanto a haver bons docentes, não tenho dúvidas nenhumas e basta-me o teu exemplo pelo que de ti sei e ouço, apesar de nunca ter assistido a uma aula tua. Sei o quanto a situação em que estás te tem desmotivado mas é nos tempos conturbados que se vê a nossa verdadeira força e sei bem que vais tocar tudo para a frente e ser bem sucedida.
- Quanto ao último desafio que me colocas, da possibilidade da extinção do meu serviço e da possibilidade de colocação num distrito contíguo, voltas a pecar por excesso, ou seja, vais ao extremo de escolher uma localidade bem lá do outro ponto. Tudo depende do bom senso com que se fazem as coisas. O procedimento é de todo correcto mas não devemos extremá-lo. Se fechasse Marvão, poderia haver Vila Velha de Ródão, Castelo Branco ou até mesmo Estremoz que está a uma hora. Porque havemos nós logo de pensar no outro extremo, no pior, no ridículo. Não há necessidade de ser cruel. Mau seria se me falassem no Minho ou no Algarve. Isso sim, seria não ter consideração alguma pelos funcionários. E mesmo assim, nos tempos que correm, de mudança obrigatória, ainda ter emprego, já seria uma grande coisa!
Sei que se pudéssemos, teríamos aqui uma discussão interminável porque há certamente razão de parte a parte. Percebo a tua revolta porque conheço a injustiça da situação concreta em que te encontras e sei que tens razão. Só te desejo que corra tudo o melhor possível e que se resolva tudo quanto antes.
Um beijo,
Pedro

6:59 da tarde  

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