Desabafos de Marvão

O convite de um amigo para desabafar na Rádio Portalegre, todas as quartas, às 7.30h, 10.30h, 13.30h, 17.30h, 23.30h, levou-me também a criar um espaço, na blogosfera, onde possam ficar registados os textos da versão radiofónica. Espero que gostem e já agora, se não for pedir muito, que vos dê que pensar. Um abraço...

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Um rapazinho de Marvão

terça-feira, fevereiro 06, 2007

19º Desabafo – 7 de Fevereiro de 2007 – “O Amor em castelhano”


A primeira hora da manhã é sempre um desafio pessoal particularmente difícil, sobretudo nesta altura dos frios. Apesar de adorar madrugar e de achar que só quem tem a coragem de se adiantar a todos os outros que ainda rebolam de gozo no tépido conforto dos lençóis, poderá auspiciar a agarrar o dia com as duas mãos, tenho de confessar que sou uma máquina de combustão lenta ao acordar. Digamos que o meu processador tem extrema dificuldade em fazer restart. Não sou definitivamente um daqueles felizardos que saltam da cama ao primeiro bocejo do galo mais madrugador, já com o fato de treino vestido e com a disposição das meninas da secção de lingerie da Redoute estampada no rosto. Bem queria! Mas de nada valeram as intensas negociações que fiz comigo mesmo, tentando convencer-me das inúmeras virtudes da corridinha matinal, se porventura despertasse mais cedo. Acabo sempre derrotado, a suplicar ao botãozinho vermelho do despertador, um prolongamento de mais dez minutinhos antes da azáfama que se repete inexoravelmente dia-a-dia. Mal colocamos o pé no chão, sabem como é, uma correria entre as divisões da casa, uma luta frenética com os ponteiros, para ver quem chega primeiro à primeira de todas as metas.
Num desses dias da semana passada, enquanto terminava uma torrada apressada e aproveitava a trégua dada pela mais pequena da família enquanto lavava os dentes, aproveitei para saltar do canal 2, o inevitável canal 2, para as notícias da RTP1.

As grandes manchetes do dia já tinham passado em antena e o pivot anunciou, já em jeito de variedades, a realização na véspera do primeiro casamento gay mexicano.

Ao ouvir isto, enquanto acabava de barrar a manteiga num recarga e me preparava para começar a arrumar o “estojo”, sem sequer olhar para o ecrã, o meu cérebro deu um pontapé na caixinha adormecida do preconceito e comecei desde logo a imaginar dois gringos de sombreros cor-de-rosa e florinhas nos bigodes, de maõzinha descaída no ar, de mantilha com as cores do arco íris ao ombro, a desfilarem no alto de um semi-reboque pela avenida fora. Quando me virei para ver as imagens, surpreendi-me e quase me envergonhei em silêncio. Afinal, eram duas mulheres e as imagens não tinham nada de bizarro, antes pelo contrário. Não pude deixar de reparar que no momento do sim, em frente à congressista, suspiraram em uníssono, com uma sincronia inatingível se não fosse natural, mesmo que tivessem ensaiado mil vezes. Foi um suspiro que veio de dentro, de extremo alívio e felicidade, a que se seguiu um sorriso olhos nos olhos, daqueles a que nem o coração mais empedernido fica imune.

Karina Almaguer e Karla Lopez, de 25 e 30 anos, viajaram para Saltillo, que eu já conhecia pela má memória da rebelião da selecção portuguesa durante o Mundial de 86, no Estado de Cohauila, para selarem oficialmente a sua união, dando assim pela primeira vez uso à lei aprovada em 11 de Janeiro último, que conferiu a este Estado de dois milhões de habitantes, a particularidade de ser o único dos 31 que compõe os Estados Unidos Mexicanos, a ter a graça de poder unir perante a lei dois seres do mesmo sexo.

Eram duas belas mexicanas, sim senhor, uma de jeito bem mais masculino, cabelinho com gel puxado para trás, casaquinho de cabedal, outra mais rechonchudinha e efeminada, com três pneuzinhos entre a última costela e o osso da bacia, a fazer lembrar as Vénus, as Deusas-mãe do Paleolítico. Tremendamente felizes e sobretudo, aliviadas.

Andei com aquele sorriso a dar voltas na minha cabeça e agradeci em silêncio a energia positiva que o enlace me deu durante o dia. Até parecia que tinha saído do “copo de água”.

Reconheci, falando comigo, que este foi provavelmente um dos assuntos em que durante a minha vida senti uma mais clara viragem de opinião. Como todas as outras crianças da minha aldeia, nasci, ou cresci ou fizeram-me ser um homofóbico acérrimo. Homens só com mulheres e vice-versa. Nada de invenções que isso não é cá para nós! Aprendi, no conservadorismo alentejano potenciado com as mais profundas convicções católicas, a condenar a diferença, a apontar o dedo acusador aos que “não eram normais”, a denunciar as aberrações da natureza. Como se fosse alguma vez possível, homens e mulheres escolherem amar os seus iguais, em vez das partes que os complementam. Quando éramos miúdos dizíamos em segredo no pátio da escola que a Ana Zanatti vivia com a Lara Li, consagrando um boato dos anos oitenta que se transformou em mito urbano. Ainda me lembro quando a última foi estrela de uma festinha de Verão da Ranginha, em pleno concelho de Marvão, e de a estar a observar como se fosse um pássaro raro. Acho que ela não reparou. Devia estar habituada…

Ao longo da adolescência, já na idade adulta e sem saber, dei por mim a maravilhar-me com obras da literatura, da pintura, do cinema produzidas pela rara sensibilidade de aqueles e aquelas que um dia abominei e achei sinceramente que não havia nenhum crime nisso. Há de facto uma grande diferença entre aqueles que usam a sua sexualidade para chocar tudo o que os rodeia, pelo puro prazer de provocar e aqueles que na intimidade da sua diferença, optam por conduzir a sua vida pelo trilho por onde pensam que poderão ser mais felizes, com discrição e sobriedade.

Não é novidade para ninguém que a homosexualidade é cada vez mais aceite em termos sociais e tem ganho terreno declarado no nosso mundo ocidental. Na televisão, na publicidade e até na própria orientação política, tem sido um segmento cada vez mais levado em linha de conta e parece-me que já não olhamos para ele com o estigma de outros tempos. Seria alguma vez possível há dez anos, haver um programa em horário nobre na televisão, como aconteceu há tempos na SIC, em que um grupo de homossexuais se dispunha a mudar o visual de um concorrente? Aposto que seria cancelado logo no episódio piloto por falta de participantes. Quem é que quereria ser o bobo da corte?

Lembro agora que a chave para a resolusão deste suposto problema reside numa simples palavra que me tomou de surpresa quando cheguei à composição escrita da Prova Geral de Acesso. “Disserte sobre a tolerância”. “A tolerância? Mas que raio! Esta agora!” E lá fui meio cambaleante por ali fora dando-lhe conforme podia que o tempo era curto e a conversa tinha de ser preciosa. A julgar pela nota, não me devo ter safado mal, mas ainda hoje, a tolerância que me tem acompanhado nos meus pensamentos, é para mim cada vez mais a chave da felicidade da nossa sociedade e a única e verdadeira via para se ser feliz. O dicionário define-a como a “atitude de admitir a outrem uma maneira de pensar ou agir diferente da adoptada por si mesmo; acto de não exigir ou interditar, mesmo podendo fazê-lo”. Será porventura uma bela oportunidade de recordar a velha máxima que diz que “a nossa liberdade termina quando começa a liberdade dos outros”

“Et voilá!”, o segredo do sucesso ou aquilo que realmente nos faz falta nas redomas de vidro onde vivemos.

Afinal, aquele sorriso cúmplice mexicano que me surpreendeu no noticiário da manhã, era o de uma vitória que há muito aquelas almas sonharam, e da certeza que no futuro teriam a garantia de poder viver a sua diversidade em liberdade à luz da legalidade.

Se pensarem bem, o que é que nós temos a perder ou ganhar com isso?

Se em vez de olharmos para eles como pretos, judeus, maricas, comunas, fascitas, infiéis ou mentirosos e os tomarmos como nossos iguais, no fundo como seres que tal como todos nós querem apenas ser felizes, o mundo seria um lugar bem melhor para viver.

E já agora, que se afunilam as trincheiras e se aproxima o dia 11, dentro da nossa maravilhosa diversidade e seja qual for o resultado da votação, já digo como o outro, “talvez valesse a pena pensar nisto”.

4 Comments:

Blogger Andre said...

Amigão,

Só esta semana tive conhecimento do o teu blog e desde já quero dar-te os parabéns pela tua habilidade em nos surpreender sempre com iniciativas novas e inteligentes.

Como não acompanho os teu directos, esta forma é excelente para me manter informado e comentar os teus temas.

Um abraço,
XICO DA BLUSA filho

11:52 da tarde  
Blogger silbinha said...

...hoje não caí de paraquedas, vim mesmo de propósito.. ;)
Acerca do preconceito, acho que é a mera expressão dos nossos medos, receio daquilo que não compreendemos...Talvez a humanidade um dia se consiga ver espelhada em almas, em vez de corpos e os nossos medos sejam simplesmente recordações passadas.
Um grande bem haja.
Xilbinha

10:40 da tarde  
Blogger miranda said...

Viva, amigo Pedro,

Escrevo-te para te felicitar por estes escritos, de uma autêntico homem da comunicação. Ainda não tive tempo de te ouvir, mas não há-de passar muito tempo até que uma destas quartas-feiras sintonize a Rádio Portalegre para ter o gosto de escutar os teus desabafos. Esta coisa da Internet é muito interessante. Agora mesmo estou a escrever ao mesmo tempo que vejo no Youtube um vídeo de uma Festa do Castanheiro, onde está a aparecer a minha prima Júlia. E lembrei-me de sugerir que tratasses de colocar neste espaço o filme que promoveu as Comidas d’ Azeite, de que eu ouvi comentários bem positivos. A iniciativa é inteligente e espero que sirva para levar aos restaurantes mais clientes e a preservar o engenho do fabrico do azeite. Nunca mais me esqueci de uma visita de estudo que fizemos ao lagar da Abegoa, que penso que está fechado há alguns anos, mas que recordo como um sítio especial. O que lhe aconteceu?
Desculpa não comentar o tema do teu desabafo, mas o tema da diferença é daqueles que eu não discuto. Todos somos diferentes e todos somos semelhantes. Não é de estranhar que aceitemos o que já vimos e os que estão próximos e que rejeitemos o que desconhecemos ou está longe. Mas o contrario também é aceitável. Cada um pensa por si e um amigo, como um irmão, é um amigo, independentemente do sexo que pratica na cama. Eu só pratico com quem quero, tanto sexo como muitas outras coisas, mas não quero mal a quem não pensa assim. Desde que não queiram praticar comigo, estejam à vontade.
Agora poderia ficar para aqui a escrever disparates madrugada fora. Tenho pena de não escrever mais vezes em sítios como este, como tenho pena de não aparecer mais vezes, mas essa conversa fica para outro dia. Agora despeço-me, agradecendo a tua generosidade em partilhares aqui as tuas ideias e convidares os outros a comentá-las.
Um grande abraço para ti e para os amigos que por aqui passarem
do Jaime Miranda.

PS 1. Esta é a primeira vez que escrevo. Em outros posts há comentários de apelido Miranda que não são meus. O seu a seu dono.
PS 2. Hoje no google fiz uma pesquisa por notícias de Marvão e saiu-me uma reportagem do Diário da cidade de Natal, no Brasil. Interessante, onde chega o interesse pela nossa terra.
PS 3. Bastante interessante é também a rubrica Íntimo, da Revista Ùnica do Expresso de dia 3 de Fevereiro. É sempre bom ver pessoas da nossa terra.

4:17 da manhã  
Blogger Bonito said...

Isto está a ficar interessante...

Grandes amigos da minha geração ...e não só. Gente com percursos diversos mas com origem comum. Gente boa e capaz.

Além da qualidade dos teus textos esta é uma consequência que também, com certeza, te orgulha: juntar à conversa esta gente!!

Já agora, o outro J.Miranda é o Jorge Miranda, não é?

Abraço a todos
Bonito Dias

10:16 da tarde  

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