Desabafos de Marvão

O convite de um amigo para desabafar na Rádio Portalegre, todas as quartas, às 7.30h, 10.30h, 13.30h, 17.30h, 23.30h, levou-me também a criar um espaço, na blogosfera, onde possam ficar registados os textos da versão radiofónica. Espero que gostem e já agora, se não for pedir muito, que vos dê que pensar. Um abraço...

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Localização: Marvão, Alentejo, Portugal

Um rapazinho de Marvão

terça-feira, janeiro 16, 2007

16 º Desabafo – 17 de Janeiro de 2007 – “Na Taberna”


Eu sei que pode ser difícil de ouvir assim a seco mas garanto-vos que às vezes tenho vergonha do meu país. Às vezes, tenho vergonha de ser português e por tabela, acabo por ter vergonha de mim e da minha inércia também. Às vezes oiço e vejo coisas que quase me dão vontade de passar da palavra à luta armada. Neste caso, já por diversas vezes tinha ouvido o assunto de soslaio em conversas alheias mas como me parecia tudo tão mau e impossível, deixei-me ficar a ver se a onda passava e se o pior não se concretizava. Mas neste caso, acabou tristemente por se tornar realidade.

Na segunda-feira, as filmagens de um documentário de promoção a um evento cultural do Município de Marvão levaram-me ao Porto da Espada. Nessa manhã enevoada, passei pela Taberna local e em vez do sorriso de sempre, nada mais havia que uma porta fechada. A razão para tal encontrei-a metros acima quando me cruzei com a Dona Estrela, proprietária do espaço, que de olhos rasos me confirmou que nesses difíceis momentos que se seguiram a uma noite de angústia sem sono, decidiu fechar de vez a porta.

Disse-me que a legislação mudou muito, que agora aperta de maneira diferente e que não tinha como dar resposta. O espaço não permitia os aumentos regulamentares, as exigências eram mais que muitas e que não se podia arriscar aos valores das coimas. Os fiscais estão muito em cima e o dinheiro está contado. Os senhores da ATIVE aconselharam-na a não arriscar. Está muito em jogo e no futuro alguma coisa se haveria de arranjar.

Assim de repente, meio desarmado com a sinceridade angustiante, quis saber mais… o porquê assim e agora. “Sabe, já se falava disto há muito. O senhor que me aconselhou disse que há um ano que lutavam para que estas exigências não fossem assim para a frente, mas não havia nada a fazer. Há muitos interesses… muitos interesses.”

Contou-me que sim, que leu toda a legislação, “que agora não querem nada em madeira, nem os cabos das facas sequer. Tudo em inox! Chegou-se ao ridículo de numa outra casa próxima, terem obrigado o proprietário do estabelecimento a retirar as madeiras do sobrado e a colocar um placa quando o imóvel nem sequer lhe pertence. Quem é que paga essa despesa? Quantas refeições se têm de servir para pagar tal investimento?”.

“Querem um expositor diferenciado para os enchidos e o queijo; os pesos não podem ser de ferro, têm de ser de cobre, por sinal caríssimos; não pode haver comida própria confeccionada guardada no frigorífico, enfim, todas as imposições possíveis e imaginárias. Se lhes juntarmos os impostos, a segurança social e um tanto que ronda os duzentos contos anuais para uma fiscalização da higiene alimentar… andava a trabalhar para aquecer”.

“Eu que tinha a minha arca dividinha e limpinha, com carne e peixe separados, agora tenho de ter uma única para cada género de alimentos. A banha e a manteiga têm 5 dias para se gastar. Coloca-se uma etiqueta quando se abre e depois vai para o lixo se não se gasta. Já viu isto? Tem de se afixar na cozinha os ingredientes da comida e de se guardar uma amostra durante 3 dias, para análise. Até a casa de banho tem de ser limpa 3 vezes ao dia, com o horário fixo e tudo apontado para que todos vejam. Agora até para se limpar retretes se tem de saber ler e escrever. Qualquer dia temos de ter um curso superior!”

“Nunca eu pensei que um dia me fizessem um cerco tamanho que haveria de dar cabo da minha vida. Sabe o que eu acho? Que acabam com tudo, que rebentam com os mais pequenos para que só os grandes sobrevivam. Acho que temos o país a ir por água abaixo.”

“Não me consigo governar com o copo de vinho e o café. E assim vamos ficando sem nada. A minha mercearia era muitas vezes um apoio para a população. Agora quando precisarem de alguma coisa vão onde? A Portalegre? De camioneta da carreira a buscar o açúcar ou a manteiga?”

“Tive que me vir de lá embora. Não aguentava mais estar lá, a olhar para as coisas, a ouvir falar na rua e eu do lado de lá… com aquelas paredes a sufocarem-me.”

“Foi uma história de amor com 17 anos que acabou mal.”

O nosso conterrâneo José Carlos Malato teve a felicidade de pegar na frase do “fui feliz aqui”, “fui feliz ali” e entrou directamente para a ilustre galeria dos que inventam com as palavras coisas que todos queremos como se fossem nossas. Para quem não teve o privilégio de conhecer, a Taberna não era um espaço qualquer e como muitos outros, também eu tive a distinta honra de ter sido ali muito feliz. Feliz porque o Tonho Zé e a Dona Estrela recebiam os clientes não como tal mas como amigos sinceros mesmo que os conhecessem nesse dia, de braços sempre abertos e com um sorriso sincero de boas-vindas que não aparecia na conta final. Soberbamente decorada com tarecos de outros tempos, a Taberna impressionava logo à entrada pela sua tipicidade. O amplo balcão à antiga, as fotografias da povoação, a arca onde descansávamos, ou os calendários escolhidos a dedo, faziam um K.O. directo de afecto inicial que deixava o mais maduro de queixo caído perante tamanha envolvência. Depois era mergulhar por aquelas sinuosas galerias repletas de tremendo bom gosto e saber receber, com as colecções de chaves antigas, os candeeiros, os potes e despertadores de outros tempos que há muito deixaram de funcionar. Depois havia a televisão dos princípios dos 80, os pratos, a arca dos cereais, as cadeiras, tudo, tudo um mimo, um regalo de bom gosto.

Na Taberna perguntavam sempre se o comer estava bom quando repunham algo na mesa. Na Taberna, os jarros apareciam cheios sem que fosse preciso chamar o cicerone. Na Taberna riam-se connosco e eram felizes quando de lá nos viam sair felizes. Perdoem-me os outros tantos de quem eu sou também tão amigo, mas tenho de confessar que era na Taberna que eu me sentia mesmo em casa. A soberba feijoada de chocos com que me despedi sem saber, nunca mais ninguém me tira.

Disse-lhe que pensasse positivo. Que há males que vêm por bem. Que quando Deus fecha uma porta, abre sempre a tal janela e gastei ali as minhas frases feitas de reconforto. Pedi-lhe que repensasse. Que não desmembrasse a casa. Que empregos de cozinheira há em muitos lados e oportunidade não lhe há-de faltar. Mas pedi-lhe mais uma vez que reconsiderasse. Que pensasse em montar a tenda noutro lado, que respeitasse as condicionantes, que era possível ainda assim, com uma sala maior, conseguir suportar tudo.

Ela respondeu-me que em última instância há sempre Espanha ali tão próxima, “para onde marcharam já alguns colegas e onde primeiro está a economia e o bem-estar das pessoas e só depois vêm as leis que só servem para os servir. É por isso que eles evoluem e nós não passamos da cepa torta.”

Compreendo que é necessário haver normas e disciplina. Percebo que há normativos comunitários a cumprir. Sei que a legislação é cada vez mais criteriosa. Mas nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Vejam bem ao estado em que chegámos no nosso país que as casas não são fechadas mas fecham só com o medo das coimas. Com tanto rigor, com o sermos tão certinhos, matamos a nossa cultura, as nossas tradições e a forma de vida que nos torna tão diferentes de todos os outros.

Imaginem bem o que seria se tivéssemos a força suficiente para bater o pé e dizer que não. Imaginem o que seria do nosso concelho se criássemos um Parque Temático que recuperasse todas as tradições que o mundo moderno exterminou, com a oportunidade de visitarmos e assistirmos ao modo de produção de um matadouro tradicional, de um moinho de azenha, de uma adega típica, de um lagar tradicional. Imaginem as excursões de estrangeiros e de meninos da cidade a fazerem centenas de quilómetros para verem as entranhas de um porco e conhecerem o seu próprio como nenhuma aula de biologia o pode fazer, a provar os enchidos, o pão, o azeite e o vinho no local mais apropriado. Quando um dia o pensarmos de facto, nada mais haverá a fazer.

Qualquer dia, logo após o nascimento, colocam-nos um código de barras na testa e metem-nos numa prateleira qualquer e nós, caladinhos, herméticos e selados. Standartizados e globalizados. Estupidificados e submissos.

À Dona Estrela e ao Tonho Zé, um abraço do tamanho do mundo, como aquele que quase demos meio a tremer na segunda-feira. Eu tenho esperança e não há-de faltar muito para que possamos erguer as taças do tal tinto para brindarmos sobre um pato com castanhas como só vocês sabem fazer. Havemos de voltar a ser felizes juntos nem que no final vos tenha que dizer um “gracias” orgulhoso em vem de um “obrigado” envergonhado.

3 Comments:

Blogger catita said...

Bem escrito, muito bem escrito!!!no final de dezembro também já tinha dedicado um post à Dona Estrela e ao Tonho Zé...

10:21 da manhã  
Blogger Bugalhão said...

Quem vem desabafar, hoje sou eu.

Confesso que ao ler este teu "desabafo" me senti emocionado e não consegui deter algumas lágrimas que me brotaram dos cantos dos olhos.

Em primeiro lugar, quero dizer-te que me revejo inteiramente nos teus argumentos e que cheguei a sentir inveja de ti, por não ser eu a escrever esta crónica. Mas, certamente, faltar-me-ia alguma capacidade e arte de escrita, para expôr com a clareza e simplicidade como tu o fazes. E por isso, senti-me orgulhoso por tu o "fazeres por mim".

Em segundo lugar, quero aqui deixar a minha solidariedade ao Tonho Zé (e a todos os outros na mesma situação), pela "sacanice" a que estamos sujeitos no nosso próprio país, pelos "litoralistas" iluminados, que vêem o "país real" do alto do castelo de S.Jorge, ou de um qualquer "maquedonalde" da capital da porra.

Já não nos chegava ter manuais escolares para "meninos de copo de leite e queque"; a ter serviços de saúde à imagem de "lesboa" (mas sem recursos, porque a "malta aqui no interior, tem "desconto" nos impostos); a comprar casas ao preço que eles querem e mandam; a pagar auto-estradas ao dobro do preço; e agora, querem fazer-nos à imagem deles e semelhança...e fechar-nos os poucos lugares onde ainda podemos beber uns copos e contar umas anedotas...

Amigo Pedro, por tudo isto, quando te decidires a "pegar em armas", conta comigo, nem que seja a "Cassete", porque os "gajos" andam mesmo a pedi-las.

"PS": Obrigado por elegeres temas "nossos". Alguma daquela gente nem merece que se fale ou escreva sobre eles...

Um Abraço
João Bugalhão

10:37 da tarde  
Blogger Mirandinha said...

Pedro,

Ponderei sériamente se iria comentar o teu “desabafo”, sim, porque tens a capacidade de a brincares dizer coisas muito sérias…
“Aliciado” (pagaram) por um amigo comum, vi no teu “desabafo” uma hipótese de tertúlia bloguista (não fazer conotações).
Realmente concordo contigo, é lamentável a forma como ao longo dos anos nos fomos “prostituindo”, e mais grave ainda, tornando-nos vazios de ideias e de ideais.
Continuo a assumir-me como um ALENTEJANO conservador (com o que isso encerra de pior), numa época em que o correcto é ser anti-qualquer coisa, eu sou anti-anti, porque temos o direito de discordar do correcto.
Continuo a achar que um “HOME” é um “HOME” e um rato é um rato, e isto é um princípio do qual não abdico, por mais errado que esteja!!!
Em relação a tudo o que nos tem sido espoliado (porque deixamos) nos últimos 20 anos, com essa coisa da CEE (assim diziam os outros), os principais culpados somos nós, porque deixámos a inércia apoderar-se da nossa capacidade de reacção, uns porque se alhearam, outros porque se acomodaram. Podemos inclusive avaliar quem tem mais culpa.
Quando fecharam, lagares, talhos, lojas, tabernas…, nós assobiámos para o lado, não conhecíamos as pessoas, hoje estamos despertos para esse problema e não precisamos que nos assobiem para bebermos água… se calhar já é tarde, – ainda poderemos ir á fonte pelo nosso pé?
Como diria António Gedeão “ …cada vez que o homem sonha, o mundo pula e avança…”
Provavelmente chegou a hora de deixarmos de sonhar e colocar as ideias em actos, que isso do AGIR é uma coisa complicada…

Um abraço
Mirandinha

11:43 da tarde  

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