Desabafos de Marvão

O convite de um amigo para desabafar na Rádio Portalegre, todas as quartas, às 7.30h, 10.30h, 13.30h, 17.30h, 23.30h, levou-me também a criar um espaço, na blogosfera, onde possam ficar registados os textos da versão radiofónica. Espero que gostem e já agora, se não for pedir muito, que vos dê que pensar. Um abraço...

A minha fotografia
Nome:
Localização: Marvão, Alentejo, Portugal

Um rapazinho de Marvão

terça-feira, janeiro 23, 2007

17º Desabafo – 24 de Janeiro de 2007 – “Admirável Mundo Novo”

João Pedro Serra Sobreiro. Nascido a 09.01.2007

Há dez anos atrás, atravessei o Alentejo rumo ao reino dos Algarves, não para passar as férias de Verão como era hábito, mas para ali deixar o meu único irmão, acabadinho de entrar para gestão na Universidade local. Foi uma das viagens mais difíceis da minha vida, apesar da aparente alegria do jovem caloiro e restante família. Custou-me porque soube que ali acabava um ciclo e se iniciava um outro onde estaríamos inevitavelmente sempre mais afastados. Depois de vencer quilómetros e filas intermináveis para inscrições, rendi-me à fadiga e acabei por ali pernoitar num quarto recém alugado. Na duríssima manhã seguinte, fingi-me protegido pela carapaça de irmão mais velho que tem sempre de parecer seguro e destemido, embora tremesse por dentro por não saber o que haveria um dia de ser dele. Como seria a escola? Com quem iria andar? Com quem comeria? A quem se iria agarrar quando estivesse sozinho e doente? Quis-lhe pedir desculpa pela mal que lhe pudesse ter feito (acreditem que não deve ser nada fácil ter sido o meu irmão mais novo) e desejar-lhe a melhor sorte do mundo, mas da boca nada mais saiu que umas breves palavras de confiança. Nunca o disse a ninguém, mas até ao cruzamento de Ourique, os olhos mal viram a estrada de tão turvos de emoção e já muita saudade.

Lembram-se do desintegrador de moléculas da nave espacial da série de televisão “O caminho das Estrelas”, em que a tripulação se metia debaixo de um chuveirinho cósmico para desaparecer e voltar a ser matéria mesmo que fosse no mais recôndito cantinho do Universo? Quantas vezes me deitei a sonhar com uma e eu sempre quis ir para bem mais perto que eles. Paciência!

Mas o miúdo deu-se bem e hoje, contando apenas com a ajuda de Deus e dele próprio, conseguiu instalar-se no terrível mercado de trabalho, arranjar um cantinho, fazer amigos, ter os seu espaço e no último drible, fintar o casamento fazendo jus às modernices e decidir sem mais ser pai. 9 meses volvidos, estava a pobre parturiente a braços e pernas com o milagre mais lindo da vida, entre dores e suores e promessas que nunca mais a enganavam e nós de ouvido colado ao auscultador à espera da boa nova, a fazer lembrar os tempos idos da telefonia, quando o telemóvel deu sinal de mensagem. Mensagem multimédia! Uma fotografia. Abri. Envolto em cobertores e de olhitos encandeados pela luz, com minutos de vida e ainda quase a deitar fumo do calor do ventre materno, lá estava o João Sobreiro.

De boca aberta de espanto, dei por mim a pensar, que admirável mundo novo.

Quanto não valeu, naquele momento, ter tão precioso aparelho capaz de dar em segundos mais do que mil minutos de muita conversa ao telefone.

Realmente, este é um tempo fantástico para se viver e já por diversas vezes dei por mim a deitar contas a isto.

Quando fui estudar para Lisboa, em 92, computadores? Só de ouvido! Até na faculdade, era raro pôr-lhes a vista em cima. Ainda sou do tempo em que as pesquisas na Biblioteca Nacional se faziam em intermináveis gavetinhas cheias de papelitos com o resumo da obra e do autor. Caricato, não é? Hoje em dia, qualquer palerma tem um portátil debaixo do braço nem que seja só para impressionar.

Pois eu sou do tempo em que se escreviam cartas às namoradas que foram longas e às centenas. Cartas de papel, daquelas que se metiam num envelope com selo e tudo e se entregavam nos Correios. Cartas cheias de carinhos e beijinhos e promessas de amor eterno que custavam como o raio a escrever porque se tinha de fazer muita força na caneta para se deitar cá para fora tudo o que se sentia. Nos dias que correm, a malta nova é só de e-mail para cima e vão aos correios apenas quando querem recarregar o telemóvel ou ir buscar a encomenda da Redoute que mandaram vir via Internet. Falam uns com os outros num programa gratuito chamado Messenger, onde não se paga mais que nada e se pode estar um dia inteirinho a teclar com o nosso primo que anda na campanha da apanha do Kiwi no Sri Lanka, como se tivesse sentado aqui à nossa beira. Só não dá para jogar à bisca lambida mas isso já era pedir demais.

O planeta e a história mudaram com a chegada da Internet que continuo a considerar a maior invenção do homem pelas infindáveis capacidades que retém e ainda agora continuam por explorar. Tenho a certeza que diria que seria impossível se há dez anos atrás me dissessem que teria hoje a possibilidade de publicar um texto que em segundos pode ser visualizado em qualquer parte do mundo incluindo na Polinésia Francesa, através de um processo que me abre as portas de enciclopédias e dicionários e das maiores galerias e bibliotecas do mundo inteiro, que me permite saber quase tudo em tempo real, que tanto me ensina a fazer uma bomba artesanal como me lista de improviso o nome de todos os prémios Nobel da Paz, que me traz tudo o que são discos, livros, jornais, que me manda mensagens com vídeo e som e transforma o planeta nem sequer numa aldeia, mas numa vielazinha global.

É que eu sou do tempo em que não havia telemóveis! Aquele tempo em que quando queríamos saber de alguém e esse alguém não estava em casa ou no emprego, nos deixava loucos e a ligar para cabeleireiras ou cafés (consoante fosse feminino ou masculino) porque não havia maneira de saber onde se teria metido. Voltando às cachopas, nada de namoricos à distância debaixo dos lençóis. Se a queria ouvir tinha de esperar na fila do telefone e ouvir a conversa do da frente que ligou à mãe porque perdeu o último autocarro e depois fingir que tinha tosse e falar baixinho para que o que estivesse atrás não pudesse gozar o prato. Vá-se amolar! Se quiser namorar que arranje uma!

É que não consigo para de rir quando recordo as “bichas” infindáveis na praia junto às cabines telefónicas, quando meio mundo esperava atrás do outro para mandar beijinhos para casa. Parece uma cena do novo testamento! Já não se usa!

Naquele então, que não foi seguramente há mais de uma década, quando queríamos jogar num videojogo, íamos aos míticos “Convívios” do Senhor Artur Matos que de certeza seria eleito, se houvesse na altura um concurso desse género, como o Português mais importante de sempre para a malta nova. Qual Afonso Henriques, qual Fernando Pessoa, qual Marques do quê? O pai Artur, que ganhava dinheiro até a dormir é que a sabia toda! Hoje os putos não chateiam as mães para lhe dar uma moeda para meter na máquina de arcada. Hoje jogam em casa, na Playstation, com os paizinhos, a 10 contos cada jogo e toma lá que já almoçaste.

Lembram-se de só haver dois canais de televisão? Meu Deus do Céu! Como foi possível não morrer mais gente de tédio? E nós, que sempre recorríamos aos espanhóis que nos safavam a onça, só há pouco mais tempo é que pudemos receber a SIC e o então Canal dos Padres. Hoje, há estações para tudo e mais alguma coisa, do desporto à música, do sexo à historia e ainda um para a Igreja Maná. Onde irá dar tanta fartura?

Nas viagens do Expresso que demoravam 6 horas, 6! do Casal Ribeiro até Santo António, ouvia num pequeno leitor de cassetes portátil, as fitas que o meu amigo Sardinha me gravava na rádio da Benedita, com as últimas novidades e modéstia aparte, sentia-me muito à frente. Hoje? Usam uns leitores minúsculos de mp3 que guardam tantos discos como eu então nunca poderia carregar, nem que andasse com um dumper atrás. Minúsculos, tecnologicamente perfeitos, muitas deles guardam filmes e fotografias e mil e uma coisas mais. Por falar nisso, cds que eu também me lembro de ver nascer, tendo na perfeita memória o dia em que os vinis foram metidos num caixote de lixívia e assentaram bem no fundo da arrecadação.

E os filmes meus amigos, os filmes que nós exasperávamos por ver e tínhamos de fazer quilómetros e quilómetros de devoção cinematográfica. Hoje, graças aos dvds e à pirataria, experimentem ir a uma feira próxima e levem para casa os últimos candidatos aos Óscares por euro e meio. O fascínio da sétima arte no conforto do seu lar!

Quer nós queiramos quer não, nada é nem será como dantes e a vertigem e a velocidade são cada vez maiores. Na minha bola de cristal eu vejo que qualquer dia nos metem uma coleira ao pescoço que nos dará os valores dos diabetes e do colesterol, a tensão arterial e a esperança média de vida, apitando o hino da EX-URSS quando se bebe uma mini fresquinha a mais.

“É isso aí”, como dizem os brasileiros, o futuro mete-me medo mas eu gosto ainda mais de agora do que dantes.

Ontem, na Bica, passou por mim uma carrocita cheia de neo-hippies que vivem para aquelas bandas. São eles que se educam uns aos outros, fazem de médicos de clínica geral, de dentistas, de psicólogos e até de obstetras dando razão ao velho Rousseau que o bom selvagem é mesmo bom desde que queira. Estes, pelo menos, não fazem mal a ninguém.

Eu cá vou mais pelo Aristóteles e também acho que o homem é mesmo um animal social, que sem os seus pares definha e desaparece. E se esse animal social puder ter o último gadjet da tecnologia, o último gritinho da moda high-tech para lhe facilitar a vida, tanto melhor.

É que os sinais de fumo dos homens das cavernas não me iriam permitir ver o palminho de cara do meu novo afilhado tão bem como no ecrã cristalino de um telemóvel de última geração e isso é bom. É mesmo muito bom!

4 Comments:

Blogger Graça Viegas said...

Pedro:

Só hoje tive a oportunidade de conhecer os teus desabafos através da leitura do blog.
Apenas te posso dizer: PARABÉNS!
Como sempre, uma escrita excepcional.
Tenho ainda a dizer-te que conseguiste que eu os tivesse lido sempre de lágrimas nos olhos.
Por exemplo: neste desabafo e conhecendo-te, consegui perceber e sentir tudo o que escreveste sobre deixar o Miguel, ( o mano mais novo e protegid por ti ), no Algarve e a emoção de ver pela primeira vez o João Sobreiro ( sobrinho e afilhado ) ainda que através de um MMS.
Obrigada por te lembrares das pessoas do Concelho.
1 beijo grande cheio de amizade,
Graça Viegas

10:33 da tarde  
Blogger Clarimundo Lança said...

Tudo lindo......
Mas começou a primeira duvida
qual a cor do babete
verde
vermelho

9:09 da tarde  
Blogger Clarimundo Lança said...

Tudo lindo......
Mas começou a primeira duvida
qual a cor do babete
verde
vermelho

9:09 da tarde  
Blogger janita said...

Espectaculo,não há mais palavras para este puto.
Quanto ao resto estamos cá para o que der e vier.Babetes vamos apostar nos vermelhos porque o miudo merece o melhor.

Grande abraço

12:39 da tarde  

Enviar um comentário

<< Home