Desabafos de Marvão

O convite de um amigo para desabafar na Rádio Portalegre, todas as quartas, às 7.30h, 10.30h, 13.30h, 17.30h, 23.30h, levou-me também a criar um espaço, na blogosfera, onde possam ficar registados os textos da versão radiofónica. Espero que gostem e já agora, se não for pedir muito, que vos dê que pensar. Um abraço...

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Um rapazinho de Marvão

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

20º Desabafo – 14 de Fevereiro de 2007 – “Grandes Portugueses”

O acto de elogiar alguém encerra em si riscos óbvios por ser sempre uma faca de dois gumes: se por um lado pode ter o imenso poder de galvanizar, de recompensar, de estimular; por outro pode conduzir ao amorfo conformismo e em última instância, à redutora normalização.


Sabendo de olhos fechados esta cantiga, os portuguesitos são peritos em não cair na tentação de elogiar aquilo ou aquele que seja que ainda tenha a capacidade de se mexer e respirar. O português apurou e cultivou durante anos a magnânime técnica de parabenizar apenas aquele que já não pode retribuir o elogio em agradecimento. Faz parte do melhor código de conduta lusa apenas dizer bem de alguém depois de morto e devidamente arrefecido, sete palmos e meio debaixo de terra. Estando um a fazer tijolo nunca se poderá superar, nunca poderá dali passar, nunca mais nos poderá reduzir.

Já todos ouviram histórias deliciosas como a do crápula, do bêbado, mulherengo, salafrário, devedor, esbanjador, irresponsável incorrigível que sendo atropelado em último estado de embriaguez à porta da mais sórdida das tabernas por um camião do lixo mais madrugador, que se transforma num ápice, enquanto o enfiam na mortalha mais à mão, na boca daqueles que o cruxificavam horas antes e por entre lágrimas de crocodilo, num extremado paizinho de família, num companheiro como ninguém viu, num amigo dos seus filhinhos, num pobre diabo a quem a maldita da vida nunca sorriu. “Já lá está, na terra da verdade! Que Deus Nosso Senhor o conserve muitos anos sem nós!”

No fundo não é nada demais, é apenas uma questão de cautela. É uma espécie de versão da velha máxima “não cuspas para o ar que te pode cair em cima” adaptada a uma versão mais simpática do género “não caias na tentação de elogiar aqueles que um dia na tua frente se poderão atravessar”.

Muito poucas excepções contrariaram esta tendência nos últimos anos. Talvez deva destacar a bizarra homenagem caseira que Jorge Sampaio prestou a um Mário Cesariny já em avançado estado de combustão mas ainda a planar numa brilhante lucidez revolucionária. O rapaz Sampaio soube bem escolher os seus braços direitos e procurou colmatar nos apoios imediatos as visíveis fraquezas que deixava transparecer. Soube dar ouvidos a quem melhor lhe segredou mas não deixou de ser caricato ver o Presidente da nossa República, aquele que é em teoria o garante maior da nossa soberania, prestar homenagem a uma das mentes mais loucas, transversais e visionárias do século XX português. Foi no mínimo estranho e irónico ver o símbolo máximo da nossa autoridade curvar-se perante um dos maiores porta-estandartes da subversão e da recusa que recorreu a todas as formas de arte que tinha à mão, incluindo a própria vida, para confundir e incendiar as mentes dos que os rodeavam. Mas ao menos foi a tempo.

Pois eu digo que os tempos que correm também não estão para grandes elogios. Cada um vive para si, estando todos fechados nas prisões a que chamam casas, dependentes das mordomias sem as quais já não sabem ser ninguém e aquilo que os outros fazem ou possam vir a fazer, de nada altera o rumo das coisas.

Mas a mim, hoje e aqui dá-me vontade de elogiar exemplos de pessoas que aplaudo e me suscitam respeito e admiração.

O Daniel Roldão deve ser da minha idade. Trinta e poucos, não mais. Cruzámo-nos inúmeras vezes no Liceu de Portalegre onde ambos estudámos e até chegámos a partilhar amigos mas vá-se lá saber porquê, nunca chegámos à fala. Creio que nunca devemos ter ido além de um cumprimento circunstancial mais distante. Calhou, como se costuma dizer. Com o passar dos anos, esqueci-me que ele existia e descobri recentemente o segredo do seu sucesso na muita imprensa escrita que faço questão de triturar. Sendo zootécnico de profissão, o Daniel descobriu na sua vocação empresarial, não direi a galinha dos ovos de ouro mas mais propriamente a galinha dos rebuçados de ovo de ouro. Ao criar a empresa “Sabores de Santa Clara” recuperou juntamente com a sua oficial de cozinha, Teresa Gonçalves, o saber fazer do divino conhecimento das monjas dos conventos da cidade e ao aumentar o tempo de validade dos rebuçados sem alterar a sua receita original, projectou um dos ex-libris da doçaria do mosteiro, as já famosas bolinhas douradas de alegria. Sendo grande nas lojas gourmet de todo o país, produzindo 2.500 rebuçados diários com recurso à mão-de-obra de apenas quatro funcionárias, tem agora as baterias apontadas para os aliciantes mercados internacionais, enquanto magica em segredo novas embalagens e as mais diversas formas de chegar aos públicos-alvo. Disse em entrevista que “queremos estar presentes nos momentos importantes das vidas das pessoas” e só por aqui já fico com a barriguita consolada de tanta capacidade e sentido de oportunidade. Perante esta verdadeira jogada de mestre, mais vale tirar a mão da testa e deixar-se de lamúrias que o caso é mais para bater palmas. Em frente, Daniel!

Também o António Costa que eu conheci no seu stand da Feira da Castanha de há dois anos, me surpreendeu há dias nas páginas de um semanário onde contava a sua história. De facto e agora que penso nisso, constato que a sua amabilidade e o seu modo de expressão o denunciavam dos restantes e deixavam pressupor um passado rebuscado que só agora confirmei. Tendo tido um passado comercial na banca, tendo sido um quadro de destaque de um grande banco português e inclusive chegado a director comercial de uma importante seguradora, mandou tudo às urtigas quando descobriu que na flor da idade, vivia uma vida que não era a sua e partiu para Manteigas onde ajudou a desenvolver a empresa Ecolã que produz mantas, cachecóis e tapetes, roupas e artigos personalizados para hotelaria, sempre com o maior respeito pelos processos e padrões tradicionais. Processando 15 toneladas de lã anuais, esta unidade fabril que emprega oito efectivos do sector que se encontravam no desemprego, produz por ano 16 mil peças que encantam já o país e toda a Europa somando vitórias como a última obtida em Dezembro, em Milão, na maior feira internacional de artesanato do mundo, onde foi considerada pelo diário Il Giornale, como a melhor dos 2.500 stands presentes.

Casos não muito diferentes do de Pedro Freire que fugiu da cómoda secretária da capital onde apodrecia no seu fato e gravata, para Seia onde hoje produz o queijo certificado de São Gião. O gestor de 30 anos, aboliu assim uma escravatura na capital que o amordaçava para se libertar nas cercanias da serra onde transforma por ano 75 mil litros de leite em cerca de 16 mil queijos que vende para a Irlanda, França, Inglaterra, Angola, Brasil e Noruega, estando já de olhos postos nos Estados Unidos. Tendo arrebatado diversas medalhas de ouro e prata em Prémios Mundiais de Queijo, já foi inclusive elogiado pela Rainha da Noruega que se perdeu de amores pelo seu “Serra da Estrela Velho”.

Casos de jovens que ousaram desafiar o destino e dizer não de vez.

Casos de pequenos grandes heróis das suas vidas e de brilhantes referências nas nossas que souberam tornear a oblíqua obrigação para abraçarem a enorme felicidade que é viverem a vida que querem.

Casos, meus amigos, que nos podem fazer sonhar e até quem sabe, soltar as nossas próprias amarras e abrir caminho face ao desconhecido.