Desabafos de Marvão

O convite de um amigo para desabafar na Rádio Portalegre, todas as quartas, às 7.30h, 10.30h, 13.30h, 17.30h, 23.30h, levou-me também a criar um espaço, na blogosfera, onde possam ficar registados os textos da versão radiofónica. Espero que gostem e já agora, se não for pedir muito, que vos dê que pensar. Um abraço...

A minha fotografia
Nome:
Localização: Marvão, Alentejo, Portugal

Um rapazinho de Marvão

quarta-feira, março 21, 2007

25º Desabafo - 21 de Março de 2007 – De olhos postos no infinito



Há um pensamento que me tem assombrado ao longo de muitos anos e ainda hoje me deixa sem fôlego quando o retomo. Não conseguindo estabelecer a linha orientadora que me fez lá chegar inicialmente, posso tentar, com a ajuda das palavras, colocar-vos nesse ponto que considero de não retorno: ao nascermos e enquanto crescemos, somos formatados para viver e raciocinar mediante determinadas regras e conceitos. Não nos conseguimos abstrair da noção de tempo, de espaço, de religião, de história e de absoluto. Imaginem então que um cataclismo, uma guerra ou uma praga dizimavam toda e qualquer forma de vida, exterminando por completo as hipóteses de sobrevivência do nosso planeta. Imaginem que um cometa, um asteróide, um qualquer corpo celeste não passível de se desviado da nossa rota ou destruído antes do contacto, chocava e colocava um decisivo ponto final na história da terra. Tentem perceber então, o que ficaria depois… Suponham que não restava um único ser vivo, um livro, um registo, um apontamento, uma imagem, um resquício que fosse da nossa breve passagem por este mundo. Suponham que não restava nada! Que seria então de nós e da nossa efémera condição, nesse imenso universo infinito de que quase nada sabemos? Quem nos daria as respostas que todos queremos ver respondidas quando um dia chegarmos ao fim da linha? Será que alguém viria a saber, um dia, que nós alguma vez existimos?

Ficaria apenas o silêncio e a escuridão, a vaguear por entre o nada e sem nada mais ter para dizer. Nem dias, nem horas, nem memórias, nem sinal dos tempos… nem bem, nem mal, nem princípio, nem fim. Apenas um tremendo e absoluto vazio a reinar por todo o espaço sideral.

Esta constatação deixa-me sempre em suspenso e a imaginar se haverá alguma volta a dar porque mesmo que consideremos a presença de Deus e do seu Contrário, a existência do Céu, do Inferno e do Purgatório, depressa nos apercebemos que todas essa grandezas não passam também de abstracções ou realidades deste mundo que podem não ser compatíveis quando este se encontra destituído das suas próprias estruturas.


Imaginem o nada!

Sendo um apaixonado destas temáticas e um ávido curioso de novidades nestas matérias percorri praticamente todo o caminho para não profissionais e amadores dedicados, disponível na literatura, televisão e cinema. Nos livros, devorei Júlio Verne, as aventuras épicas d’”O Homem que veio do Futuro” e o clássico “Um estranho numa terra estranha” onde aprendi o significado da palavra “grocar”. Na saga televisiva, não perdi pitada de séries como “Cosmos” do Professor Sagan, e fui do “Espaço 1999” à “Galáctica”, do “Caminho das Estrelas” à “Guerra das Estrelas”, do “Buck Rogers” ao “V – Batalha Final”, do “Twilight Zone” aos “Ficheiros Secretos”. Em cinema, idolatrei e coleccionei os clássicos, dos “Encontros Imediatos do Terceiro Grau” ao “E.T. – O extraterrestre”, do “Planeta dos Macacos” à “Duna”, do “Blade Runner” ao “2001 – Odisseia no Espaço”, da “Inteligência Artificial” aos “Aliens”, da Trilogia “Matrix” aos “Sinais”.

Quero eu dizer com isto que por força das circunstâncias e apesar de nunca ter sido barra a Física e Química, penso que, modéstia à parte, se houvesse uma invasão de seres vindos de um qualquer confim do Universo, dispostos a dar uma boleia à malta, era capaz de ter um lugar à frente garantido por força da fervorosa admiração destas temáticas, se é que existem dianteira e traseira num disco voador.

Aceito perfeitamente que haja quem em nada acredita. Custa-me! mas aceito os que pensam que estamos por nossa conta e risco, que não há nada de divino nesta história toda. Mas como é possível que alguém, uma vez deitado no banco de jardim do meu quintal numa noite quente de Verão, consiga olhar para cima e contemplar a sublime imensidão de luzinhas a piscar no infinito sem pensar que algures, que fica onde a nossa imaginação jamais conseguirá chegar, pode haver algo mais. Nem as nebulosas, os buracos negros, a multiplicidade de corpos celestes ou a vastidão do espaço os faz mudar de ideias e gerindo uma inqualificável posição egocêntrica para a qual nem sequer existe nome, dizem que o resto é tudo fantochada…

Andava eu às voltas com tudo isto quando uma súbita e tenebrosa insónia provocada por uns terríveis pesadelos fez de mim um leitor sonâmbulo a meio da noite. Não havendo mais nada disponível de momento, aproveitei para dar volta ao refugo da imprensa da semana, guardado em volumosos saquinhos do “Expresso” e do “Sol”, atafulhados com o que ficou por ler nos últimos dias.

E foi aí, quando deviam estar a bater as 4 da manhã, de luz acesa e olhos bem abertos que descobri, por entre os cadernos do imobiliário, uma entrevista que me perturbou ao ponto de me deixar ainda mais acordado, perplexo perante o universo de dúvidas que me surgiu praticamente do nada.

Nessas páginas conheci o Professor Sabit Abyzov, sexagenário cientista russo que esteve esta semana em Lisboa para uma Conferência na Fundação Luso Americana para o Desenvolvimento e que anda há mais de 30 anos há procura de formas de vida extraterrestres… bem no interior do Pólo Sul!

Espantados? Também eu fiquei e acho que a coisa não é para menos. Realmente, desde que me lembro, sempre que me falavam em extraterrestres, a primeira coisa a fazer era olhar para cima. Pois este veterano das pesquisas por vida noutros planetas em ambientes frios, escolheu como local de estudo o Lago subterrâneo de Vostok, um dos maiores do planeta, com 250 quilómetros de comprimento por 50 de largura e cerca de 500 metros de profundidade, situado a 3.844 metros acima do nível do mar, que detém o recorde da temperatura mais baixa alguma vez medida: 89,6 graus negativos!!! Convencido de que poderiam existir bactérias ou algas unicelulares capazes de sobreviver nestes ambientes extremos, venceu o gozo da classe científica ao descobrir em 1975, vários tipos de micro organismos, como fungos que depois reanimou com uma mistura de nutrientes à base de caldo de batata com alguns pós de maquinaria molecular de leveduras.

E isto só acontece porque a água mantém-se líquida a grande profundidade devido ao efeito isolante das grossíssimas camadas de gelo que cobrem o continente, com um manto que cria um ambiente mais quente e agradável nas profundezas amenizado pelo calor que vem do interior da terra. Sendo assim, este deserto de gelo pode esconder uma imensa zona húmida, com ecossistemas inéditos. Não serão certamente extraterrestres como os que estamos habituados a ver armados até aos dentes na ficção científica, mas formas de vida muito embrionárias que poderão evoluir até aquilo que hoje somos, desde que as condições atmosféricas assim o propiciem.

Estamos a falar de um lago isolado de todo o mundo há pelo menos 500.000 anos, mas podendo ir até ao próprio milhão de anos, ou seja, muito antes da nossa espécie andar pela superfície da terra, partindo do Crescente Fértil Africano para colonizar o resto do mundo. Só para servir de referência, os vestígios mais antigos de um Homo Sapiens, do último estágio da evolução humana, têm 150.000 mil anos.

É por assim dizer, um maravilhoso mundo gelado que eu estava longe de conhecer antes e que agora nos indica as pistas mais concretas para o estudo de formas de vida existentes noutros planetas partindo precisamente do nosso. Realmente, estava longe de imaginar que o estudo de um ecossistema terrestre pudesse alguma vez funcionar como um modelo de investigação em astrobiologia. Na base destas preciosas informações, passaremos daqui em diante a olhar para Europa e Ganimedes, duas das luas geladas de Júpiter, que sabemos cobertas de gelo e com um Oceano líquido por baixo, de uma forma bem diferente…

Neste preciso momento, as brocas que perfuram o coração do deserto branco do Lago Vostok, mergulham a 3.660 metros em plenas montanhas geladas, explorando um mundo virgem que poderá ter muita para nos contar sobre aquilo que fomos e aquilo que poderemos um dia voltar a ser.

Não é tão bom só de imaginar?